quarta-feira, 29 de outubro de 2014

LUCAS, O GATO TETRAPLÉGICO RESGATADO EM OSASCO-SP

Lucas me ensinando sobre amor, resiliência, paciência e carinho.

Essa é a conclusão de Beatriz Silva sobre o gato que resgatou dia 1 de outubro em Osasco, no Jardim Veloso, um entre tantos outros casos de resgate da região. Lucas tem sensibilidade nas patas, mas não anda, fez diversos exames e tem um quadro delicado de saúde (não há lesão medular ou na coluna). É realmente um quadro neurológico e que ainda precisa de exames para ter um diagnóstico certo, mas já trabalha-se com a hipótese de hipoplasia medular cerebral como maior suspeita de seu caso. Como só há tratamentos paliativos, faz-se o melhor para seu cuidado e conforto. Lucas se alimenta da pastinha adhills pela seringa ou recovery, mas tem fome e é animado.

Beatriz agradece os veterinários que atenderam o Lucas, e cederam suas consultas gratuitamente. "Sem exceção, foram maravilhosos com ele TODO O TEMPO com amor, atenção e carinho. Deus abençoe TODOS vocês." 

Felizmente só temos pago pelos exames e medicamentos. Agradeço também a toda força que a ASSEAMA - Associação Espírita Amigos dos Animais tem nos oferecido com amor, carinho, orações e recursos para ajudar o Lucas.
Continuamos na torcida pela sua cura. Para que os novos exames possam nos dar uma luz, um tratamento, uma chance de que ele seja curado.  Orem por ele!!! Colaborem se puder, só chamar inbox. Tim 9.8445-5314.



Nessa foto fazendo acupuntura e tomando choquinhos de estimulação.
Ele está fazendo acupuntura e fisioterapia 1 vez na semana no Rio Pequeno. O ideal seriam 2 vezes na semana. Beatriz é conhecida por proteção e causas animais na cidade de Osasco. Eu a conheço pessoalmente e posso atestar que ela é uma daquelas pessoas de coração maior do que o que lhe cabe, resgatando e tentando auxiliar todos os animais possíveis (não apenas os felinos) e isso inclui limitar inclusive seu padrão de vida pelos pequenos.


Lucas entrou com novos medicamentos essa semana para que possa melhorar sua condição. Está fazendo fisioterapia para não perder o tônus muscular e iniciou acupuntura.

Continuamos na torcida pela tratamento do Lucas. Para que os novos exames possam nos dar uma luz, um tratamento, uma chance...de que ele seja curado...ou mesmo tenha mais qualidade de vida.
Acompanhem o álbum dele no facebook ou mesmo o vídeo.

Por hora ele possui a alimentação necessária, mas toda a ajuda é bem vinda, afinal ela não sabe ainda como será seu futuro. Vai depender de como ele reagir aos tratamentos.


Bradesco ag 1382-0 e c.c 0127990-4
Banco do Brasil ag 6838-1 e c.c 25923-3

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Alt-j (∆)

Motivos incríveis para amar Alt-J (∆)  



Alt-J, também conhecida pelo símbolo delta Δ (que é a junção das teclas, se digitadas em um Mac OS) é uma banda de rock alternativo britânica. Formada em 2007, em Leeds, na Inglaterra, os integrantes se conheceram na universidade e, apesar de tanto tempo juntos, lançaram seu primeiro e por enquanto único álbum, An Awesome Wave, só em 2012.



O som da banda é incrível e bem peculiar, pois como tinham que ensaiar no quarto da universidade, não podiam fazer muito barulho. Então, eles abdicaram do baixo e do bumbo da bateria em algumas músicas, que normalmente aparecem em todas as bandas. Alt-J passa por vários estilos nas 13 faixas do CD, mas não deixa de manter o seu próprio. É o tipo de música que, se você ouvir no rádio, com certeza vai saber de quem é. No entanto, o motivo desse post e o que vai te deixar apaixonado por eles não é (só) o som, e sim as letras e todas as surpresas que elas trazem.

Quer descobrir do que eu estou falando? Dá uma olhadinha:

Para começar, vamos falar do single e da minha música preferida: “Breezeblocks” tem um clipe sensacional que vai te tirar o fôlego e fazer dar replay muitas vezes. Além disso, o grupo fez alusão ao livro infantil de Maurice Sendak, Onde Vivem os Monstros, na parte final da música.



“Please don’t go. I’ll eat you whole. I love you so. I love you so, I love you so”

No livro de Maurice, Max é um menino desobediente que, após brigar com a mãe, vai para uma terra habitada por monstros que o declaram rei. Mas com o passar do tempo, Max sente falta da família e decide voltar. É quando os monstros dizem para ele não ir embora e que o comeriam. De acordo com a banda, o tema trata de um amor obssessivo, onde você é capaz de machucar quem você gosta para ela não fugir. Tudo a ver com o clipe e com a frase!


Em “Fitzpleasure”, não só a música é forte como todo o simbolismo por trás dela. Há muita coisa envolvida. Ela foi inspirada no livro de Hubert Selby Jr., Last Exit to Brooklyn, de 1964. A obra tornou-se um clássico pelo retrato da vida no Brooklyn e pela franqueza ao abordar assuntos como drogas, violência, estupros, homossexualidade e travestismo. O livro é dividido em seis partes, cada uma com um conto diferente. A que inspirou Alt-J foi “Tralala”, onde retrata a vida de uma prostituta que leva o nome da história.

Tralala é uma jovem que vive se prostituindo e roubando em bares de marinheiros e, em uma das cenas mais marcantes do livro, Tralala acaba sendo estuprada por uma gangue, que usa uma vassoura (broom, em inglês), depois de uma noite de bebedeira.

“Tralala, in your snatch fits pleasure, broom-shaped pleasure”

O vocalista da banda, Joe Newman, disse que, apesar de ser uma cena horrível, é muito bem escrita, forte e tocante, e por isso valeria a pena usá-la em sua canção.



A música “Matilda” é basicamente baseada na personagem de Natalie Portman, quando ela tinha 12 anos, no suspense O Profissional, de Luc Besson. A trama conta a história de Mathilda, uma menina de onze anos que convence um assassino, Léon (Jean Reno), a ensiná-la suas habilidades, para que ela possa vingar a morte do irmão. No começo da música, a banda também faz uma homenagem ao cantor Johnny Flynn, em referência à música “The Wrote And The Writ”.

“Just like Johnny Flynn said, ‘the breath I’ve taken and the one I must’ to go on”

Joe Newman disse que Léon teve um grande efeito nele e que Mathilda era uma personagem excelente.



Agora, para os leitores que chegaram até o final (quase), a música que vai te fazer chorar: “Taro”!

Antes de mais nada, é importante escutar a canção e ler a letra antes. 



Já no começo da música, Alt-J nos apresenta o renomado fotógrafo de guerra Robert Capa, que cobriu diversos conflitos, inclusive a Primeira Guerra da Indochina.

“Indochina, Capa jumps Jeep, two feet creep up the road
To photo, to record meat lumps and war
They advance as does his chance, very yellow white flash
A violent wrench grips mass, rips light, tears limbs like rags”

E aqui começa um pouquinho de história: Capa, que era judeu, começou sua carreira em 1931, em Berlim. Mas em 1932, teve que fugir do país, por causa do nazismo (Robert Capa era o pseudônimo de Endre Ernő Friedmann). Após se mudar para Viena e, em seguida, para Paris, Capa conheceu sua companheira, Gerda Taro, que também era fotógrafa.


Juntos, o casal seguiu para a Espanha, em 1936, para acompanhar a Guerra Civil Espanhola, e foi então que o carro que Gerda dirigia durante o conflito foi acidentalmente atropelado por um tanque de guerra.

“Mine is a watery pit
Painless with immense distance
From medic from colleague, friend, enemy, foe
Him five yards from his leg, from you, Taro”

Mesmo depois de sua perda, Capa continuou a fotografar vários outros conflitos. Em 1954, na Guerra da Indochina, Capa pisou em uma mina e morreu, se juntando a Taro.

“3:10 pm, Capa pends death, quivers, last rattles, last chokes
All colors and cares glaze to gray, shriveled and stricken to dots
Left hand grasps what the body grasps not, le photographe est mort
3.1415 alive no longer my amour, faded for home May of ’54
Doors open like arms my love, painless with a great closeness
To Capa, to Capa, Capa dark after nothing, re-united with his leg, and with you, Taro”

Por último, de acordo com o vocalista da banda, a música retrata os dois segundos anteriores e póstumos ao acidente com Capa, narrando exatamente sua chegada, caminhada, acidente e morte.




Mesmo quem não goste do som de Alt-J deve, pelo menos, respeitá-los pelo trabalho incrível da banda, que encheu de presentes seu primeiro CD. Alguém duvida que os próximos sejam tão bons ou até melhores? Embarque em An Awesome Wave e sinta que o nome faz jus ao trabalho!



P.S.: Texto originalmente publicado em Mundo Blá! por Laura Dourado.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Chororo político



Duas observações:

1. É a dita democracia que está colocando esses políticos no poder, então, do ponto de vista democrático, não se tem muito o que fazer a não ser aceitar.

2. Se com o passar do mandato, boa parcela da população se arrepender do voto dado e não honrado, existem soluções.

Obviamente que a classe política nunca está afim de que saibamos, mas vamos lá:

 Impeachment ou impugnação de mandato é um termo do inglês que denomina o processo de cassação de mandato do chefe do poder executivo pelo congresso nacional, pelas assembléias estaduais ou pelas câmaras municipais. A denúncia válida pode ser por crime comum, crime de responsabilidade, abuso de poder, desrespeito às normas constitucionais ou violação de direitos pétreos previstos na constituição.

Para que se desencadeie o processo de impeachment, é necessário motivação, ou seja, é preciso que se suspeite da prática de um crime ou de uma conduta inadequada para o cargo.

Mas e Recall, já ouviu falar? O procedimento de revogação do mandato pode ocorrer sem nenhuma motivação específica. Ou seja, o recall é um instrumento puramente político.

No recall, é o povo que toma a iniciativa de cassar ou não o mandato.

Resumindo: no impeachment, o procedimento é geralmente desencadeado e decidido por um órgão legislativo, enquanto que, no recall, é o povo que toma diretamente a decisão de cassar ou não o mandato.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Festa garantida



Junte no mesmo dia e na mesma hora uma das melhores festas de São Paulo de resgate da cultura popular (Batbacumba), uma das casas mais badaladas da cultura musical (Puxadinho da Praça) e uma das bandas mais dançantes da atualidade (Bonjour Pará) e você pode apostar que a noite vai ser daquelas.

Batbacumba se consolida em sua 14ª edição sempre apresentando muita cultura brasileira, cores e gente bonita e sorridente afim de dançar.

Puxadinho da Praça por outro lado é uma daquelas casas que você vai para lá sem sequer saber quem está tocando acreditando que o que toca ali tem qualidade.

Bonjour Pará é uma banda onde o carimbó e a guitarrada é o ponto de partida, podendo passar por clássicos do Beto Barbosa, chegando à lambada do Kaoma. Resumindo. Você vai dançar muito.

Ainda vai ter João Laion comandando o som

A casa abre 23H com show previsto para meia-noite.
R$20,00 até meia-noite e R$ 25,00 depois de meia-noite
Se você quiser, pode antecipar seu ingresso por aqui.

O Puxadinho da Praça fica no coração da Vila Madalena na rua Bel,iro Braga, 216






Jetboat

A brincadeira, digo, o negócio começou na Nova Zelândia ainda na década de 50. Um barco movido por um jato de água ejetada na parte de trás da embarcação. Diferente de barcos ou lanchas que possuem motores com hélice. A idéia de William Hamilton era para superar o problema das hélices nas rochas dos rios rasos da Nova Zelândia.


Já na década de 70, ele passou a ser utilizado como embarcação para esportes radicais visto a alta velocidade que eles podiam alcançar e na vasta gama de manobras que poderiam ser realizados. Ele é capaz de contornar margens sinuosas de rios, fazer manobras como um serpentear, um oito na água ou círculo e pasmem, um 360º dentro da água ou ainda entrar dentro dela e sair em uma manobra que é comum de se ver nos Jet Sky's. 

Ele é todo construído em 100% de alumínio náutico e foi aperfeiçoado ao longo dos anos para manobras radicais, ou seja, prepare-se para se molhar e sentir muita adrenalina.



No passeio, piloto e co-piloto que passaram por rigorosos treinamentos na Europa vão sentindo a receptividade do grupo, ou seja, a adrenalina vai depender do grupo na embarcação e recomenda-se que se tenha pelo menos 8 anos, afinal, com tanta manobra em cerca de vinte minutos, a força G vai te cobrar um mínimo de força, mas volto a lembrar. As manobras começam bem leves e piloto e co-piloto verificam se está tudo ok e se podem aumentar a adrenalina. Diversão garantida.


Se você não conhecia essa modalidade ainda, não se sinta fora da água. A modalidade é novidade no Brasil e por enquanto a JetBoat Brasil é a única empresa que pode te levar para dentro da água. 

Eu particularmente que sou acostumado com esportes, adrenalina e novas experiências te digo que sai com as expectativas suplantadas e muito satisfeito com a experiência. Ótima pedida para você que procura por novas experiências e gosta de esportes radicais e natureza. Não está convencido ainda? Dê o play: 


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Eu sou um pandeiro




uma das coisas que se aprende ao ficar mais velho é saber que não se pode lutar contra a vontade dos outros. dos esforços, o mais inócuo. porque por mais que você lute, a vontade do outro sempre é suprema. agora, ou depois, ela prevalece. e das batalhas, essa você sempre perde. melhor bater em retirada. 

e não é covardia, é da coragem de saber que por mais munição que a vida tenha te dado, ela nunca será muita, e ela  nunca será reposta por qualquer que seja a tropa de apoio que venha ao seu encontro. e você entrincheirado, sabe que o melhor é abandonar o fuzil e esquecer a guerra. 

e não é o cinismo que nos consola quando se fica mais tempo por aqui. ficar mais velho não é só pensar que os anos é só uma das voltas que a terra dá em torno do sol, porque você sabe que as vezes você é aquele sol. e você também tem aquele girassol mais belo do campo que te encara e te segue no céu, do seu nascer ao seu poente, pra durante a noite pesar suas pétalas e chorar com o orvalho fino, e acordar e levantar o rosto e continuar a te encarar e te seguir pelo céu novamente. 

mas as vezes existem as nuvens. e por mais que você ainda seja o sol, um reator nuclear infinito em tamanho em calor em energia em poder, aquele leve vapor de água, que fluido, fofo, branco e vaporoso vai te encobrir, vai te esconder, vai te deixar por trás do esquecimento.

e você caminha sob a lua então. e caminha e caminha. e vai pensando e escrevendo isso na sua cabeça. mas não sabe mais se isso você cria ou se isso sempre esteve aqui. embolado como fios. Como o novelo caótico que são as coisas que você esconde. e por um acaso aquilo puxa o fio e traz aquele cabo desencapado que dá choque. e choque. e choque. e aquilo te repuxa os músculos e te convulsiona as coisas. e dá uma clareza, e te embola, e te anestesia. e assim você não sente aquela dor que corta, que rasga que arranca. sim, arranca. e arrancado de coisas você segue andando, acende um cigarro, sente o pé no chão doer e o cansado das pernas e o sangue subindo e circulando e pulsando em cada veia.

e as veias, que aumentam de calibre nesse momento, te mostram que sim, você ficou mais velho e saiu de mais uma batalha com todas as cicatrizes que você mereceu. as rugas que você ostenta ou esconde são cada uma delas uma historinha. e você conta como você ganhou aquela marca de batalha, e você relembra depois de um tempo e daí você nem é mais aquele covarde que parecia ter fugido como um cagão da guerra, mas talvez é o herói. ou talvez o vilão orgulhoso. ou talvez você é só você, com uma história a mais pra contar.

e a sua pele esticada é como um pandeiro tocando um chorinho daqueles bem tristes, descompassado porque as mãos estão duras, está frio, você está cansado. e tam tam tam você segue, sambando e caindo. bamba. sabendo com quantos sambas se faz um homem, com quantos compassos se bate a macumba que te faz vivo.

e vivo você vive e assim viverá até não poder mais. cada dia um dia como outro qualquer. uns melhores, outros piores, mas estatisticamente os mesmos. ou não. a matemática pouco diz dessas coisas que não se resumem à uma formula. ou quem sabe esse teorema é apenas mais um poincaré velho e esquecido que ninguém nunca resolveu. ninguém sabe, ou ninguém nunca me disse, e pra confessar, nunca fui bom com números.

mas eu olho esses números no calendário e sei que é quase meu aniversário. 

e eu envelheci de repente.


Por Raphael Nascimento






quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O dia em que larguei o emprego e comecei a gostar de São Paul

Imagem: Gustavo Soares 

Parece contraditório, eu sei. Afinal, uma das principais razões pelas quais as pessoas dizem que vale a pena viver em São Paulo e se submeter a todo trânsito, caos, etc e tal é a possibilidade de trabalhar muito, “subir na vida” e ganhar cada vez mais dinheiro, até conseguir ter o suficiente pra dar o fora daqui. Pelo menos sempre foi assim que um monte de gente que conheço pensou. E eu não fugia à regra.

Quer dizer, fugia pela parte de ter que se matar pra conseguir ir embora, já que nunca fui muito adepta desse ritmo frenético e avassalador de encarar o emprego aqui na cidade. E olha que, mesmo assim, passei três anos trabalhando em plena avenida Paulista e encarando, diariamente, o exército de roupa social armado com seu iphone, marchando em busca de uma mesa na hora do almoço ou disputando um lugar na calçada pra tomar uma cerveja depois do trabalho, com os colegas de trabalho pra falar sobre… trabalho!
Mas o caso é que, quem me conhece, sabe que sempre preguei o discurso de que São Paulo, apesar das inúmeras oportunidades, é uma cidade que suga energias, desumaniza e nos transforma em robôs capitalistas e por isso eu iria morar numa casa no campo, onde eu pudesse ficar do tamanho da paz (com a devida permissão para me apropriar do verso inspirador). E todas as manhãs quando, como de costume, eu acordava e resumia mentalmente como seria meu dia, o único pensamento que me ocorria – sobretudo nos dias mais ensolarados e de céu azul – era: “mas que diabos você está fazendo aqui, Carol?”.  Até o ponto em que essa pergunta se tornou parte da minha rotina e dos meus pensamentos matinais.
No auge da minha ansiedade por mudanças, cheguei a enviar, em menos de uma semana, cerca de 80 e-mails para fazendas orgânicas, ecovilas, Ong’s e entidades-que-atuam-o-mais-longe-possível-da-civilização, em busca de programas voluntários que iam desde limpar cocô de rinocerontes na África até observar o ciclo de acasalamento das baleias jubarte no Sul do Brasil.
Não que eu pessoalmente não ache ambos incríveis e, com certeza, ainda quero passar por essas e tantas outras experiências. Mas eu me dei conta de que minha busca estava mais para uma fuga desesperada do que um encontro com alguma vocação. E foi aí que eu decidi parar, respirar e tomar a decisão mais razoável para o momento: larguei o emprego. Assim, sem mais nem menos, sem eira nem beira nem qualquer outro jogo de palavras ou de cartas na manga pra me virar. E não, meus pais não me sustentam pra eu poder me dar ao luxo de bancar a rebelde-revolucionária e viver de mesada.

Passados dois meses na rotina de fazer freelas de conteúdo em blogs, redes sociais e eventualmente cliente oculto em clínicas de massagem (porque afinal, não tá fácil pra ninguém) e com o dinheiro já nos últimos e derradeiros suspiros, encontrei uma oportunidade para participar de um projeto com a proposta de levar cultura e diversificar o público frequentador das bibliotecas de São Paulo. E eu que adoro livros, adoro cultura e adoro o contato com pessoas, achei que meus dias de massagem tinham chegado ao fim.
Resumindo para não perder o foco que já não tenho. Estou na minha primeira semana de trabalho e já tive oportunidade de contar história para três classes de crianças de 3 a 5 anos, o que me levou a descobrir que a forma como você conta às vezes é mais importante que a história em si, já que a atenção delas se dispersa a cada 8 segundos. Que não importa se você pergunta “quem já comeu feijão” ou “quem nadou com leões marinhos míopes no verão passado”, todas elas sempre vão levantar a mão e responder em uníssono “EEEEEEEEEEEU”.
Descobri também que se dois livros contam a mesma história, porém possuem edições com capas diferentes, as crianças podem julgar que se trata de um outro enredo e isso pode eventualmente te levar a ler “Os 3 porquinhos” três vezes seguidas, repetindo inclusive o sopro do lobo tentando derrubar a casa deles. Descobri, por fim, que nada descreve a sensação de ver um grupo de vinte pessoinhas vindo correndo na sua direção e abraçando seu joelho na hora de falar tchau, assim como a fofura de ver uma delas emburrada porque não quer ir embora da biblioteca e precisa voltar pra escola.
Tenho descoberto, a cada dia, inúmeras coisas. E me surpreendido com cada descoberta. Talvez a maior delas tenha sido a de que, pela primeira vez em muito tempo, entendi o que faltava pra eu gostar de viver em São Paulo: TEMPO.
Tenho tempo pra ir de bike ou a pé trabalhar e trabalho dentro de um parque, no qual tenho tempo para passar algum tempo antes de começar o expediente. Tive tempo pra descobrir que lá do lado tem uma escola que oferece curso gratuito de libras para o qual já me inscrevi, pois faz um tempo que andei pensando que todo mundo deveria saber libras; afinal, quem não utiliza a fala como linguagem também deveria poder se comunicar sem obstáculos. Mas isso já é um outro foco e, apesar de ter tempo para falar dele, não acho que vem ao caso nesse momento.

É incrível como as coisas simples ganham sabor quando você desacelera o passo. Moro há tanto tempo no mesmo bairro e só agora descobri um clube com vários cursos gratuitos; comecei a praticar flauta e fazer slackline na praça aqui do lado quando chego do trabalho. Isso sem falar no pão de queijo recheado com requeijão divino no mercado aqui perto, que me obriga a tirar um tempinho e passar lá na volta pra casa.
“- Ah, então vamos todos abraçar árvores e viver de luz a partir de hoje”. Confesso que não acharia má ideia, mas como ainda não consegui viver de luz, preciso comer e pagar contas como qualquer pessoa. E sabe que isso não tem me parecido ser tão maçante quanto sempre foi? E sabe também que a ideia de viver em São Paulo pode não ser assim tão horrível quanto sempre pensei? Talvez eu esteja pensando em adiar meu plano desesperado de fuga por algum tempo.
Porque acho que eu descobri, finalmente, que São Paulo é um espaço como qualquer outro. Um espaço feito por pessoas. E é a nossa relação com as pessoas e com o espaço que vão definir a qualidade do tempo que passamos aqui.
Mas isso é só a opinião de quem acabou de comer um pão de queijo recheado e achou que o fato merecia uma reflexão…



Crônica de Carolina Marini originalmente publicado em Mundo Blá

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Carimbó na crista da onda

Nascido no Pará no século XVII por negros africanos com influências indígenas e ibéricas, o carimbó teve seu nome da junção dos nomes curi (pau oco) e m'bó (furado, escavado). A expressão que tinha referência direta ao curimbó (pau que produz som), mas expandiu-se ao longo dos séculos e hoje representa uma verdadeira festa com música, dança e vestimentas peculiares.



Sua força tornou-se tão grande que o Ministério da Cultura reconheceu o carimbó como patrimônio imaterial brasileiro neste último dia 09/10 e se você pensa que para por aí, o Brasil pretende trabalhar junto a Unesco para que seja reconhecido como patrimônio mundial.

A Confraria NossaCasa que sempre trabalhou com a cultura popular brasileira soma forças com a banda Bonjour Pará e prometem deixar a pista fervendo, ou melhor, tremendo. A simpática e efervescente casa paulistana tem a 6ª edição de sua festa TREME.MOVIE que ainda contará com os dj's Marina Caires e Dj 10zanu. Muito carimbó, lambada, guitarradas e saias coloridas e rodadas são esperadas para a festa.


Onde? Confraria NossaCasa, 202 Vila Madalena
Quando? Sexta 03/10
Quanto? R$15 ou R$10 com nome na lista para nossacasa1504@gmail.com

domingo, 28 de setembro de 2014

O retrato mais que óbvio daquilo que não vemos

O local? Um dos mais charmosos da cidade de São Paulo para esse que vos escreve. Casa das Caldeiras. Uma peça fora do formato habitual e interativa, mas confesso que quando cheguei ao local, um certo desconforto por haver uma planta de um novo empreendimento imobiliário, além claro, daquele grande e vistoso banner sobre o mesmo. Um casal de vendedores então surge fazendo a propaganda do estabelecimento. Alguém mais distraído pode ter demorado para notar que a peça já havia começado. Eu internamente sorria com o começo do que seria toda a peça na verdade: Uma grande crítica à tudo que nos cerca e é vendido como se fosse a verdade e a felicidade.

O trabalho realizado pelo Projeto Pi é intitulado como espetáculo multimídia e itinerante e assim o é de fato. A platéia recebe coletes de sinalização para andar nos arredores do local. Atravessar uma rua nunca será igual de uma peça para outra contanto com o tempo de um semáforo ou mesmo a simulação de um acidente de trânsito em uma rua local onde na que eu vi, alguns transeuntes de fato acreditaram em um primeiro momento que tal acidente havia ocorrido. A motorista então se consulta com um médico e mais uma dose de crise, assim como aos sistemas operacionais, programas de televisão, horário político...


(foto: Demétrius Carvalho)

Ótima pedida para esse domingo (20h30), segunda e terça (20h). Além do mais, gratuito e ótima oportunidade caso não conheça a Casa das Caldeiras.

A peça fica em cartaz até 28/10. Algumas terças não ocorrerão espetáculos.
Maiores Informações

Ficha técnica: 

Produção: Coletivo Pi;
Direção: Pâmella Cruz;
Direção de arte: Natalia Vianna;
Preparação Corporal: Marcelo D'Ávilla;
Assessoria em Arquitetura: Carolina Braz;
Colaboração em cenografia: Felipe Galli;
Assessoria de imprensa e comunicação: Luciana Gandelini;
Contra-regragem: Rodrigo Spavanelli, Matheus Felix e Sandra Toscano;
Com: Emanuela Araújo, Fernanda Pérez, Jean Carlo Cunha, Julio Razec, Mari Sanhudo, Maira Meyer, Marcelo D'Ávilla, Natalia Vianna, Pâmella Cruz, Chai Rodrigues, Priscilla Toscano, Doug Tor Lette, Marcelo Prudente e Thiago Camacho.


domingo, 17 de agosto de 2014

Selfie-se quem puder...


Hoje em dia, está difícil. A internet parece o trânsito onde todo mundo é mal educado, só que lá, o carro vai embora e pronto. Na internet, somos mal educados com nossos amigos e eles não vão embora, respondem, trocam farpas e por vezes perde-se a amizade...

O tempo muda as ferramentas, as formas e abordagens e penso que temos que repensar para não cometermos erros de julgamento instantâneo como tenho visto na net.

O "curtir" do Facebook não significa necessariamente curtir. Essa semana mesmo uma amiga postou que seu pai havia falecido. Muita gente curtiu e penso que seja um ato sem pensar, um ok, estou ciente e não o curtir no sentido de gostei. Eu não consigo curtir uma mensagem assim. Comento e pronto, mas o curtir, tomou outros sentidos.

Selfie? Vamos lá. Na foto que ilustra a postagem, uma mulher faz um selfie que também hoje já tem outra função de "checar" onde a pessoa estava no momento. São quase foto-diário.

Mas as "selfies da Marina"? Me poupem... ali não houve selfie. Ali houve pessoas querendo tirar foto com uma "celebridade". O que queriam que ela fizesse? Desse a cara e negasse a foto? Que fizesse com a cara emburrada? 

Tá difícil.... selfie-se quem puder....

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A morte...Ah morte

Imagrm retirada da internet

Os dias andam esquisitos (ou completamente normais visto que seres vivos morrem?)

Sei que esses dias andam nos preparando surpresas talvez pela popularidade dos que estão nos deixando.

Uma trinca da pesada de escritores e logo as redes sociais estavam repletas de citações deles. Alguns reclamavam que as pessoas talvez nunca houvessem lido uma única frase de cada autor. Não vejo muito problema nisso. Se for o "start"? E mesmo que não seja.

3 casos no entanto me deram um embrulho no estômago essa semana.

1) Torcida do Grêmio cantando Fernandão morreu;
2) As piadas e desdém do ator Robin Willians;
3) Eduardo Campos (e todas as outras pessoas na aeronave) e piadas e aproveitamento político da situação.

Morte é morte e respeito ao próximo é o mínimo se quisermos evoluir quanto à convivência social.

P.S.: Fica aqui minha nota de repúdio ao Pastor Daniel Vieira que disse que deveria ser a Dilma que deveria estar nesse acidente.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Estamos assistindo ao fim da democracia representativa!

Por Leo Mackllene

Nossos olhos focados em Israel e Palestina desviam nossa percepção desse momento pós-copa que estamos vivendo, de intensa politização e, ao mesmo tempo, de manipulação e omissão das informações.

A forma partido chegou em seu limite: A democracia representativa chegou no seu esgotamento total. Daqui pra frente é crise e estagnação, enquanto permanecermos assim. Esperem por 2015!!!

Não se trata de uma revolta, uma rebeldia, uma raiva adolescente e roqueira... É uma nova condição histórica. Não tem a ver com ser contra a corrupção... O discurso da corrupção é infantil e esconde as estruturas corrosivas que precisam ser derrubadas.

Todos os partidos de esquerda hoje (PSOL, o ex-PT, PSTU etc.) não poderão fazer nada além do que já foi feito. O que foi feito é o que foi permitido dentro da forma-partido. O voto nulo não traduz uma revolta. Traduz um esgotamento histórico.

Estamos assistindo ao fim da democracia representativa!

Há muito, o político deixou de ser o militante social. Ele é um profissional. E sua campanha não traduz nada além da sua própria vontade e necessidade de defender o seu próprio emprego.

Pra assistir e refletir:



terça-feira, 29 de julho de 2014

Tem dado em casa?



Eu tenho alguns aqui:

10% dos processos das pessoas chegam ao final pelo marasmo da justiça brasileira.

100% se for do estado para com o manifestante. Em tempo recorde.

Nenhum policial foi realmente punido. No máximo um banco. Tem uns que já estão na ativa novamente.

Algumas vítimas de ações policiais mesmo quando em trabalho tiveram suas vidas alteradas.

E se você não entende muito bem como funciona a democracia representativa, ela não tem representa.

Na Venezuela, o governo reconhece a prisão de 3200 manifestantes, estranhamente não se fala mais nisso por aqui...

domingo, 27 de julho de 2014

Não interessa



Não interessa que estejamos passando pelo maior processo político contra ativistas desde o regime militar...

Não interessa que o judiciário tenha cedido cópia integral do processo para a Globo...

Não interessa que a polícia militar tenha tentado invadir o consulado do Uruguai...

Não interessa que integrantes da Fifa tenham sido presos com provas mais contundentes e robustas de formação de quadrilha...


Como leigo em assuntos jurídicos, tento entender os que do ramo são. Aqui vai uma explicação, assinada por nada mais do que 93 advogados, juízes, professores de direito: Manifesto de juristas contra a criminalização das lutas sociais...

Não interessa o massacre da mídia aos ativistas para perpetrar tudo o que aí está, mas recorro outra vez aos entendedores. Dessa vez da mídia. Observatório da imprensa atentando para táticas utilizadas quando do tempo da ditadura...

Não interessa o que acontece na Venezuela se politicamente estamos alinhados aos seus líderes, mas parece interessar na Faixa de Gaza (e sim, tem que interessar)...

Não interessa um policial assassinar 8 pessoas da classe média baixa em Carapicuíba sendo uma delas uma gestante de 3 meses...

Parece que o mundo anda bem desinteressante...

terça-feira, 22 de julho de 2014

Por quê faltou?



Um copo d'água não se deve negar a ninguém. Dito popular que escuto desde quando criança e que deve ter sua origem ainda mais longínqua. Não faço a menor ideia de quando possa ter surgido na verdade.

Variação para os tempos de hoje e de toda modernidade é que não se nega wi fi para ninguém...

É... Geraldo Alckmin... deve ter sido você que semeou esse novo ditado sabendo que não ia haver mais água...

O que temos de mais bizarro é que apontam a falta d'água por anos e anos (cerca de 20) de má administração do sistema que abastece São Paulo. Duas décadas sem investir na demanda que cresce em São Paulo, sem contar que sempre soube-se que cerca de 30% da água se perde pelo meio do caminho com vazamentos antes mesmo de chegar em nossa torneira.

Como diz uma certa propaganda aí: Sabendo usar, não vai faltar!

Por quê faltou?

Pesquisas apontam que a copa afeta mais nos votos do que a falta d'água. Sorte do governador por que ela vai faltar na sua torneira somente depois das eleições...

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Legado da copa



Antes de tudo, a copa dentro de campo foi linda, inesquecível, mas a vida segue. E agora?

Confesso que me segurei por toda a copa do mundo para não falar de política e ser acusado de estar jogando contra ela e se tem alguém que se diverte tal criança em jogos de copa do mundo (menos nos jogos do Brasil onde quase infarto), esse alguém, sou eu. Continuo mantendo a minha média para lá de alta em jogos da copa. Nas últimas 4 copas, não vi apenas 17 jogos. Houve uma copa que não vi apenas 2 jogos (na hora em que havia dois jogos, eu assistia depois na íntegra o jogo).

Mas, como o caso agora é misturar, vamos lá... quase nenhum benefício para a população antes da copa que realmente vai mudar e melhorar a vida do brasileiro aconteceu. E durante? E agora depois dos jogos onde o "estado de exceção" tomou conta do Brasil?

Uma defesa comumente utilizada para desqualificar a opinião de alguém sobre um assunto, é recorrer a falta de conhecimento de dada área por quem fala. Pois bem, eu apenas concordo com tudo o que foi falado abaixo por Jorge Luiz Souto Maior que é professor docente de direito do trabalho brasileiro na Usp, Brasil desde 2001. É juiz titular na 3ª Vara do trabalho de Jundiaí desde 1998, palestrante e conferencista.

A única observação que faço é que ele levantou estas questionamentos antes da copa começar. Cabe agora apenas ficar atento ao restante:

1. A perda do sentido humano

O debate entre os que defendem a causa “não vai ter copa” e os que afirmam “vai ter copa” está superado. Afinal, haja o que houver, o evento não vai acontecer, ao menos no sentido originariamente imaginado, como instrumento apto a gerar lucros e dividendos políticos “limpinhos”, como se costuma dizer, pois não é mais possível apagar os efeitos deletérios que a Copa já produziu para a classe trabalhadora brasileira. É certo, por exemplo, que para José Afonso de Oliveira Rodrigues, Raimundo Nonato Lima Costa, Fábio Luiz Pereira, Ronaldo Oliveira dos Santos, Marcleudo de Melo Ferreira, José Antônio do Nascimento, Antônio José Pitta Martins e Fabio Hamilton da Cruz, mortos nas obras dos estádios, já não vai ter Copa!
Aliás, a Copa já não tem o menor valor para mais de 8.350 famílias que foram removidas de suas casas no Rio de Janeiro, em procedimento que, como adverte o jornalista Juca Kfouri, no documentário, A Caminho da Copa, de Carolina Caffé e Florence Rodrigues, “lembram práticas nazistas de casas que são marcadas num dia para serem demolidas no dia seguinte, gente passando com tratores por cima das casas”. Essas práticas, segundo relatos dos moradores, expressos no mesmo documentário, incluíram invasões nas residências, para medir, pichar e tirar fotos, estabelecendo uma lógica de pressão a fim de que moradores assinassem laudos que atestavam que a casa estava em área de risco, sob o argumento de que na ausência de assinatura nada receberiam de indenização, o que foi completado com o uso da Polícia para reprimir, com extrema violência, os atos de resistência legítima organizados pelos moradores, colimando com demolições que se realizaram, inclusive, com pessoas ainda dentro das casas. As imagens do documentário mencionado são de fazer chorar e de causar indignação, revolta e repúdio, como o são também as imagens da violência utilizada para a desocupação de imóvel da VIVO na zona norte do Rio de Janeiro, ocorrida no dia 11 de abril de 2014, onde se encontravam 5.000 pessoas. Lembre-se que as remoções para a Copa ocorreram também em Cuiabá, Curitiba, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Manaus, São Paulo e Fortaleza, atingindo, segundo os Comitês Populares da Copa, cerca de 170 mil famílias em todo o Brasil.
A Copa já não tem sentido para o Brasil, como nação, visto que embora sejam gastos cerca de R$ 30 bilhões para o montante total das obras, sendo 85% vindos dos cofres públicos, a forma como se organizou – ou não se organizou – a Copa acabou abalando a própria imagem do Brasil. Ou seja, mesmo se pensarmos o evento do ponto de vista econômico e ainda que, imediatamente, se possa chegar a algum resultado financeiro positivo, considerando o que se gastou e o dinheiro que venha a ser atraído para o mercado nacional, é fácil projetar um balanço negativo em razão da quebra de confiabilidade.
Se o Brasil queria se mostrar, como de fato não é, para mais de 2 bilhões de telespectadores, pode estar certo de que a estratégia já não deu certo.
A propósito, a própria FIFA, a quem se concederam benefícios inéditos na história das Copas, tem difundido pelo mundo uma imagem extremamente negativa do Brasil, que até sequer corresponde à nossa realidade, pois faz parecer que o Brasil é uma terra de gente preguiçosa e descomprometida, quando se sabe que o Brasil, de fato, é um país composto por uma classe trabalhadora extremamente sofrida e dedicada e onde se produz uma inteligência extremamente relevante em todos os campos do conhecimento, mas que, enfim, serve para demonstrar que maquiar os nossos problemas sociais e econômicos não terá sido uma boa estratégia.

2. Ausência de beneficio econômico

Mesmo que entre perdas e ganhos o saldo econômico seja positivo, há de se indagar qual o preço pago pela população brasileira, vez que restará a esta conviver por muitos anos com o verdadeiro legado da Copa: alguns estádios fantasmas e obras inacabadas, nos próprios estádios e em aeroportos e avenidas, além da indignação de saber que os grandes estádios e as obras em aeroportos custaram milhões aos cofres públicos, mas que, de fato, pouca serventia terão para a maior parte da classe operária, que raramente viaja de avião e que tem sido afastada das partidas de futebol, em razão do processo notório de elitização incrementado neste esporte.
Oportuno frisar que o dinheiro público utilizado origina-se da riqueza produzida pela classe trabalhadora, vez que toda riqueza provém do trabalho e ainda que se diga que não houve uma transferência do dinheiro público para o implemento de uma atividade privada, vez que tudo está na base de empréstimos, não se pode deixar de reconhecer que foram empréstimos com prazos e juros bastante generosos, baseados na previsibilidade de ganhos paralelos com o evento, ganhos que, no entanto, já se demonstram bastante questionáveis.
No caso do estádio Mané Garrincha, em Brasília, por exemplo, com custo final estimado em R$1,9 bilhões, levando-se em consideração o resultado operacional com jogos e eventos obtidos em um ano após a conclusão da obra, qual seja, R$1.137 milhões, serão precisos 1.167 anos para recuperar o que se gastou, o que é um absurdo do tamanho do estádio, ainda que o Ministro do Esporte, Aldo Rebelo, e o secretário executivo da pasta, Luis Fernandes, tenham considerado o resultado, respectivamente, “um êxito” e “um exemplo contra o derrotismo”.
O problema aumenta, gerando indignação, quando se lembra que não se tem visto historicamente no Brasil – desde sempre – a mesma disposição de investir dinheiro público em valores ligados aos direitos sociais, tais como educação pública, saúde pública, moradias, creches e transporte.
O que se sabe com certeza é que a FIFA, que não precisa se preocupar com nenhum efeito social e econômico correlato da Copa, obterá um enorme lucro com o evento. “Uma projeção feita pela BDO, empresa de auditoria e consultoria especializada em análises econômicas, financeiras e mercadológicas, aponta que a Copa do Mundo de 2014 no Brasil vai render para a Fifa a maior arrecadação de sua história: nada menos do que US$ 5 bilhões entrarão nos cofres da entidade (cerca de R$ 10 bilhões).”

3. O prejuízo para o governo

O governo brasileiro, que tenta administrar todos os prejuízos do evento, vê-se obrigado, pelo compromisso assumido por ocasião da candidatura, a conferir para a FIFA garantias, que ferem a Constituição Federal e que, por consequência, estabelecem um autêntico Estado de exceção, para que o lucro almejado pela FIFA não corra risco de diminuição, entregando-lhe, além dos estádios, que a FIFA utilizará gratuitamente:
a) a criação de um “local oficial de competição”, que abrange o perímetro de 2 km em volta do estádio, no qual será reservada à FIFA e seus parceiros, a comercialização exclusiva, com proibição do livre comércio, inclusive de estabelecimentos já existentes no tal, caso seu comércio se relacione de alguma forma ao evento;
b) a institucionalização do trabalho voluntário, para serviços ligados a atividade econômica (estima-se que cerca de 33 mil pessoas terão seu trabalho explorado gratuitamente, sem as condições determinadas por lei, durante o período da Copa no Brasil);
c) o permissivo, conferido pela Recomendação n. 3/2013, do CNJ, da exploração do trabalho infantil, em atividades ligadas aos jogos, incluindo a de gandula, o que foi proibido, ainda que com bastante atraso, em torneios organizados pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol), desde 2004, seguindo a previsão constitucional e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA);
d) a liberdade de atuar no mercado, sem qualquer intervenção do Estado, podendo a FIFA fixar o preço dos ingressos como bem lhe aprouver (art. 25, Lei Geral da Copa);
e) a eliminação do direito à meia-entrada, pois a Lei Geral da Copa permitiu à FIFA escalonar preços em 4 categorias, que serão diferenciadas, por certo, em razão do local no estádio, sendo fixada a obrigatoriedade de que se tenha na categoria 4, a mais barata (não necessariamente com preço 50% menor que a mais cara), apenas 300 mil ingressos, sem quórum mínimo para cada jogo, e apenas dentre estes é que se garantiu a meia entrada para estudantes, pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos; e participantes de programa federal de transferência de renda, que, assim, foram colocados em concorrência pelos referidos ingressos;
f) o afastamento da aplicação do Código de Defesa do Consumidor, deixando-se os critérios para cancelamento, devolução e reembolso de ingressos, assim como para alocação, realocação, marcação, remarcação e cancelamento de assentos nos locais dos Eventos à definição exclusiva da FIFA, a qual poderá inclusive dispor sobre a possibilidade: de modificar datas, horários ou locais dos eventos, desde que seja concedido o direito ao reembolso do valor do ingresso ou o direito de comparecer ao evento remarcado; da venda de ingresso de forma avulsa, da venda em conjunto com pacotes turísticos ou de hospitalidade; e de estabelecimento de cláusula penal no caso de desistência da aquisição do ingresso após a confirmação de que o pedido de ingresso foi aceito ou após o pagamento do valor do ingresso, independentemente da forma ou do local da submissão do pedido ou da aquisição do Ingresso (art. 27).

4. O prejuízo para a cidadania

Para garantir mesmo que o lucro da FIFA não seja abalado, o Estado já anunciou que o evento terá o maior efetivo de policiais da história das Copas, com gasto estimado de 2 bilhões de reais, mobilizando, inclusive, as Forças Armadas, tudo isso não precisamente para proteger o cidadão contra atos de violência urbana, mas para impedir que o cidadão, vítima da violência da Copa, possa se insurgir, democraticamente, contra a sua realização.
A respeito das manifestações, vale frisar, é completamente impróprio o argumento de que como nada se falou antes, agora é tarde para os cidadãos se insurgirem. Primeiro, porque quando o compromisso foi firmado ninguém foi consultado quanto ao seu conteúdo. E, segundo, porque nenhum silêncio do povo pode ser utilizado como fundamento para justificar o abalo das instituições do Estado de Direito, vez que assim toda tirania, baseada na força e no medo, estaria legitimada. O argumento, portanto, é insustentável e muito grave, sobretudo no ano em que a sociedade brasileira se vê diante do desafio de saber toda a verdade sobre o golpe de 1964 e os 21 anos da ditatura civil-militar.
Deve-se acrescentar, com bastante relevo, que o evento festivo, composto por alguns jogos de futebol, está sendo organizado de modo a abranger toda a sociedade brasileira, impondo-lhe os mais variados sacrifícios, pois impõe uma intensa alteração da própria rotina social, atingindo a pessoas que nenhuma relação possuem com o evento ou mesmo que tenham aversão a ele.
O próprio calendário escolar foi alterado, para que não houvesse mais aulas durante a Copa, buscando, de fato, melhorar artificialmente o trânsito e facilitar o acesso aos locais dos jogos. A educação, que é preceito fundamental, que se arranje, pois, afinal, é ano da Copa! Algumas cidades, para melhor atingir esse objetivo da facilitar a circulação, mascarando os problemas do transporte, pensam, seriamente, em decretar feriados nos dias de jogo da seleção brasileira, interferindo, também, na lógica produtiva nacional.
Nos serviços públicos já se anunciaram alterações nos horários de funcionamento, de modo a não permitir coincidência com os dias de jogos do Brasil, sendo que em alguns Tribunais do Trabalho (Mato Grosso – em Cuiabá e nas cidades do interior; Rio Grande do Sul e São Paulo, com diferenças de intensidade e de datas); o funcionamento foi suspenso, gerando adiamento das audiências… Ou seja, o trabalhador, que esperou meses para ser atendido pela Justiça, verá sua audiência adiada para daqui a alguns novos meses, pois, afinal, era dia de jogo da Copa!
Somados todos esses fatores, é fácil entender que a Copa já perdeu todo o sentido para a nação brasileira. Não por outra razão, aliás, é que a aprovação para a realização da Copa no Brasil, em novembro de 2008, que era de 79% caiu, em abril de 2014, para 48%, e os que eram contrários subiram, no mesmo período, de 10% para 41%, sendo que mais da metade dos brasileiros considera que os prejuízos serão maiores que os ganhos.

5. O prejuízo para a razão

Numa leitura otimista, o diretor-geral do Comitê Organizador Local da Copa do Mundo Fifa 2014, que se chama, por coincidência reveladora, Ricardo Trade (comércio, em inglês), prefere dar destaque ao fato de que 48% são a favor e apenas 41% são contra, avaliando, então, que o copo está meio cheio. Só não consegue ver que o copo está esvaziando e que, de fato, nos trens e ônibus, que transportam os trabalhadores, só se fala da Copa para expressar indignação com relação às condições do transporte, da saúde, das escolas, e da falta de creches. Sintomático, aliás, o fato de que as periferias das grandes cidades não estão pintadas para a “festa” do futebol, como estavam nas Copas anteriores e isso porque, com a Copa sendo realizada aqui, é possível ver as disparidades e perceber com maior facilidade como a retórica do legado não atinge, concretamente, a vida da classe trabalhadora.
Os tais empregos gerados são precários e inseridos, sobretudo nas obras de estádios, aeroportos e vias públicas, na lógica perversa da terceirização, sendo que muitos trabalhadores ainda serão explorados sem qualquer remuneração no mal denominado trabalho “voluntário”, referido com orgulho pelo “Senhor Comércio”.
Fato é que não será mais possível assistir a um jogo da Copa, no estádio, pela TV ou nos circos armados do “Fan Fest” e se emocionar com uma jogada ou um gol, sem lembrar do preço pago: assalto à soberania; Estado de exceção; gastos públicos; abalo da confiabilidade em razão da desorganização; violências dos despejos, dos acidentes de trabalho e da repressão policial…
Sobre o Fan Fest, ademais, é oportuno esclarecer que se trata de um “evento oficial” da Copa da FIFA, que deve ser organizado e custeado pelas cidades sedes de jogos, para que os excluídos dos estádios possam assistir aos jogos por um telão, com o acompanhamento de shows. Esse evento, organizado e pago pelo Estado (que se fará em São Paulo mediante pareceria com o setor privado, conforme Comunicado de Chamamento Público n. 01/2014/SMSP, que estabeleceu o prazo de uma semana para o oferecimento de ofertas), realizado em espaço público, atende aos interesses privados da FIFA e suas parceiras. No caso da cidade de São Paulo, por exemplo, o Decreto n. 55.010, de 9 de abril de 2014, assinado pela vice-prefeita em exercício, Nádia Campeão (em nova coincidência reveladora), que regulou o evento, transforma a área pública do Fan Fest em uma área privada, reservada, como dito no Decreto, aos fãs da Copa. Nos termos expressos no Decreto: “FAN FEST: área do Vale do Anhangabaú indicada pela cidade-sede e reconhecida pela FIFA como área de lazer exclusiva aos fãs da Copa do Mundo FIFA 2014” (inciso VIII, do art. 2º.) – grifou-se
O mesmo Decreto fixa esse local, o do Fan Fest, como área de “restrição comercial”, que são “áreas definidas pelo Poder Público Municipal com perímetros restritos no entorno de locais oficiais específicos de competição, nas quais, respeitadas as normas legais existentes, fica assegurada a exclusividade prevista no artigo 11 da Lei Federal nº 12.663, de 2012, à FIFA ou a quem ela autorizar” (inciso XIII, do art. 2º.), valendo reparar que o Decreto, artificialmente, amplia, em muito, a extensão geográfica do Vale do Anhangabaú: “FAN FEST: a partir do Largo da Memória, Rua Formosa, Viaduto do Chá, Praça Ramos de Azevedo, Rua Conselheiro Crispiniano, Rua Capitão Salomão, Praça Pedro Lessa, Largo São Bento, Rua Florêncio de Abreu, Rua Boa Vista, Rua Líbero Badaró, Praça do Patriarca, alça de retorno da Av. 23 de Maio do sentido Bairro/Centro para o sentido Centro/Bairro, Av. 23 de Maio, entre o Largo da Memória e o Viaduto do Chá, conforme Anexo II deste decreto” (inciso II, do art. 3º.), atingindo até mesmo o espaço aéreo: “Os espaços aéreos correspondentes aos perímetros descritos nos incisos I e II do “caput” deste artigo também se constituem em áreas de restrição comercial” (parágrafo único do art. 3º.).
É importante saber que ao se impedir a comercialização na área reservada a Prefeitura de São Paulo acabou interrompendo um processo de negociação, iniciado em maio de 2012, com os ambulantes que atuavam na cidade e, em especial, na região central, onde se situa o Vale do Anhangabaú, e cuja licença havia sido cassada no contexto de uma política de endurecimento muito forte quanto à fiscalização de sua atuação, que fora intensificada, exatamente, a partir de 2011, quando houve a assinatura do termo de compromisso, anunciando São Paulo como uma das cidades sedes da Copa. Em 2012, acabaram sendo canceladas todas as 5.137 licenças dos ambulantes e até hoje, mesmo após instaurado, desde 2012, um grupo de trabalho tripartite – trabalhadores, sociedade civil e prefeitura (Fórum dos Ambulantes), para a discussão do problema, nada se resolveu e, em concreto, ao editar o Chamamento Público acima citado, a Prefeitura acabou dificultando sobremaneira a pretensão dos ambulantes de terem alguma atuação comercial durante a Copa. É a Copa, na verdade, fechando postos de trabalho!

6. De novo o dinheiro

Há de se considerar que todos esses efeitos já foram produzidos e continuarão repercutindo na vida real para além da Copa, ainda que o saldo econômico desta venha a ser positivo.
E se o tema é dinheiro, há de se indagar: dinheiro para quem, cara pálida? É evidente que o benefício econômico não ficará para a classe trabalhadora e sim para quem explora o trabalho ou se vale da lógica de reprodução do capital. Para o trabalhador, o dinheiro que se direciona é o fruto do trabalho realizado, que, de fato, na lógica do modelo de sociedade capitalista, não representa, jamais, o equivalente necessário para restituir à classe trabalhadora como um todo o valor do trabalho empregado no serviço ou na obra. A lógica econômica da Copa não é outra coisa senão a intensificação do processo de acumulação de riqueza por meio da exploração do trabalho alheio, sendo que se considerarmos a utilização do denominado “trabalho voluntário”, que se realizará sem qualquer custo remuneratório, a acumulação que se autoriza é ainda maior.
O tal efeito benefício econômico, a que tanto se alude, portanto, não será, obviamente, revertido à classe trabalhadora. Esta, inclusive, será enormemente prejudicada, na medida em que o dinheiro público utilizado para financiar a atividade lucrativa de índole privada foi extraído da tributação realizada sobre a riqueza produzida pelo trabalho e que, assim, deveria ser, prioritariamente, revertida ao conjunto da classe trabalhadora para a satisfação das necessidades essenciais garantidas por preceitos constitucionais: escolas, hospitais, previdência e assistência social, creches e transporte, por exemplo. É completamente ilógico dizer, como disse o diretor-geral do Comitê Organizador Local da Copa do Mundo Fifa 2014, no texto mencionado, que se está usando o dinheiro público para incentivar uma produção privada com o objetivo de, ao final, tributar essa produção e devolver o dinheiro aos cofres públicos.
O argumento seria apenas ilógico não fosse, também, digamos assim, carregado de alguns equívocos, o que o torna, portanto, muito mais grave. Ora, como adverte Maurício Alvarez da Silva, pelos termos da Lei Geral da Copa, Lei n. 12.350/10, “foi concedida à Fifa e sua subsidiária no Brasil, em relação aos fatos geradores decorrentes das atividades próprias e diretamente vinculadas à organização ou realização dos Eventos, isenção de praticamente todos os tributos federais” .
Além disso, em 17 de maio de 2013, o governo federal publicou no “Diário Oficial da União decreto que concede isenção de tributos federais nas importações destinadas à Copa das Confederações neste ano e à Copa do Mundo de 2014. Entre os produtos incluídos na isenção estão alimentos, suprimentos médicos, combustível, materiais de escritório, troféus. O benefício abrange Imposto sobre Produtos Industrializados incidente na importação, Imposto de Importação, PIS/Pasep-Importação, Cofins-Importação, Taxa de utilização do Siscomex, Taxa de utilização do Mercante, Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante e Cide-combustíveis”.
Em concreto, continuarão sendo tributados apenas as empresas nacionais, que não estejam integradas ao rol das apaziguadas da FIFA, sofrendo, ainda, com a isenção concedida às importadoras, os trabalhadores e os consumidores, sendo que o valor circulado nesta seara é ínfimo se considerarmos aquele, sem tributação, destinado à FIFA e suas parceiras e às importadoras.

7. De novo os ataques aos trabalhadores

Quando os trabalhadores, saindo da invisibilidade, se apresentam no cenário político e econômico e se expressam no sentido de que planejam uma organização coletiva para tentarem diminuir o prejuízo, buscando, por meio de reivindicações grevistas, atrair para si uma parte maior do capital posto em circulação em função da Copa, logo algum economista de plantão vem a público com a ameaça de que tais ganhos podem resultar em demissões futuras.
Mas, essa possibilidade aventada pelos trabalhadores de se fazerem ouvir na Copa, que pode, em concreto, minimizar o prejuízo dos trabalhadores, no processo de acumulação, e do país, na evasão de riquezas, acabou provocando uma reação institucional imediata, afinal o compromisso assumido pelo Estado brasileiro foi o de permitir que a FIFA obtivesse o seu maior lucro da história. Então, a Justiça do Trabalho se adiantou e divulgou que vai estabelecer um sistema de plantão para julgar, com a máxima celeridade (de um dia para o outro), as greves que ocorram durante a Copa, com o pressuposto já anunciado de que “as greves têm custo para os trabalhadores, empregadores e população”, sendo certo que a Copa não pode ser usada para “expor o país a uma humilhação internacional, como no Carnaval, quando houve greve de garis”.
Pouco importa o quanto a Justiça do Trabalho, historicamente, demora para dar respostas aos direitos dos trabalhadores, no que se refere às diversas formas de violências de que são vítimas em razão das práticas de algumas empresas no que tange à falta de registro, ao não pagamento de verbas rescisórias, ao não pagamento de horas extras, ao não pagamento de indenizações por acidentes do trabalho etc. Mesmo que já tendo melhorado sobremaneira na defesa dos interesses dos trabalhadores, transmite ainda a ideia central de que o que importa é ser célere quando isso interessa ao modelo econômico, que se vale da exploração do trabalho para reproduzir o capital.
A iniciativa repressiva da Justiça, ademais, foi aplaudia, rapidamente, por editorial do jornal Folha de S. Paulo, o qual, inclusive, em declaração, no mínimo, infeliz, chamou os trabalhadores de oportunistas:
É uma iniciativa elogiável para evitar o excesso de oportunismo sindical, que não hesita em prejudicar o público e ameaçar o principal evento do ano no país.
Ou seja, todo mundo pode ganhar, menos os trabalhadores. Parodiando a máxima penal, é como se lhes fosse dito: “tudo que vocês ganharem pode ser utilizado contra vocês mesmos…”
Como foram as condições de trabalho nas obras? Quantos trabalhadores não receberam ainda os seus direitos por serviços que prestaram para a realização da Copa? Segundo preconizado pelo viés dessa preocupação, nada disso vem ao caso… Na visão dos que só veem imperativo obrigacional de realizar a Copa, como questão de honra, custe o que custar, o que importa é que o “público” receba o proveito dos serviços dos trabalhadores e se estes não ganham salário digno ou se trabalham em condições indignas não há como trazer à tona, para não impedir a realização do evento e para não abalar a imagem no Brasil lá fora.
Mas, concretamente, que situação pode constranger mais a figura do Brasil no exterior? O Brasil que faz greves? Ou o Brasil em que os trabalhadores são submetidos a condições subumanas de trabalho e que não permite que esses mesmos trabalhadores, em geral invisíveis aos olhos das instituições brasileiras, se insurjam contra essa situação, tendo que aproveitar o momento de um grande evento para, enfim, ganhar visibilidade, inclusive, internacional?
Na verdade, a humilhação internacional, a qual não se quer submeter o Brasil, é a de que o mundo saiba como o capitalismo aqui se desenvolve, ainda marcado pelos resquícios culturais de quase 400 anos de escravidão e sem sequer os limites concretos da eficácia dos Direitos Humanos e dos direitos sociais, promovendo, em concreto, uma das sociedades mais injustas da terra.

8. O perverso legado das condições de trabalho na Copa

Do ponto de vista da realidade, é preciso consignar que a pressa na execução das obras ainda tem aumentado a espoliação da classe trabalhadora com elevação das jornadas de trabalho, cuja retribuição, ainda que paga, nunca é suficiente para atingir o nível da equivalência, ainda mais quando são implementadas fórmulas jurídicas fugidias do efetivo pagamento (banco de horas, compensações etc.). O trabalho em jornadas extraordinárias, ademais, gera um desgaste físico e mental do trabalhador que não é computado e não se compensa por pagamento.
Além dos acidentes do trabalho citados inicialmente, portanto, é importante adicionar ao legado da Copa para a classe trabalhadora as más condições de trabalho, caracterizadas pela elevação das jornadas de trabalho, pelo aumento do ritmo do trabalho e da pressão pela celeridade.
O relato de alguns fatos, extraídos do noticiário jornalístico, auxilia na visualização desse contexto de supressão de direitos dos trabalhadores no período de preparação para a Copa.
Em setembro de 2013, 111 migrantes, vindos do Maranhão, Sergipe, Bahia e Pernambuco foram encontrados em condições análogas à de escravos na obra de ampliação do aeroporto de Guarulhos/SP, o mais movimentado da América Latina, sob a responsabilidade da empresa OAS, que além de ser uma das maiores construtoras do Brasil, é também a terceira empresa que mais faz doações a candidatos de cargos políticos, segundo levantamento do jornal Folha de S. Paulo, sendo uma das quatro empresas que formam o consórcio Invepar que, junto com a Airports Company South Africa, detêm 51% da sociedade com a Infraero para a administração do Aeroporto Internacional de Guarulhos através da GRU Airport e que para as obras de ampliação do aeroporto, onde foi flagrado trabalho escravo, obteve do BNDES um empréstimo-ponte de R$1,2 bilhões.
E a OAS, evidentemente, declarou que “vem apurando e tomando todas as providências necessárias para atender às solicitações” do Ministério do Trabalho e Emprego, negando que as vítimas fossem suas empregadas ou que tivesse tido qualquer “participação no incidente relatado” .
Até abril de 2012, conforme reportagem de Vinícius Segalla, oito dos doze estádios da Copa já haviam enfrentado greves, atingindo 92 dias de paralisação, sendo o recorde do Maracanã, no Rio de Janeiro, com 24 dias. As reivindicações foram variadas, indo desde questões ligadas à remuneração até o desrespeito de direitos como pagamento de horas extras e fornecimento de planos de saúde. Segundo a reportagem, “Em uma das quatro paralisações já ocorridas em Pernambuco, no início de novembro do ano passado, o motivo foi a forma como a Odebrecht lidou com as reivindicações dos trabalhadores. É que a empreiteira demitiu dois funcionários da arena que eram membros da Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) porque eles teriam incitado os trabalhadores a fazer greve. A demissão dos operários, junto com denúncias de assédio moral supostamente praticados pelo responsável pela segurança do canteiro, levou os funcionários a decretar greve.”
Também nos termos da reportagem, “a empresa explicou ao UOL Esporte que ‘Os dois empregados membros da Cipa foram demitidos por justa causa, por cometimento de flagrante ato de indisciplina, quando, no último dia 31 de outubro, instigaram os colegas a paralisarem a obra da Arena da Copa, sem nenhuma razão plausível’.” Embora, depois, por meio de nota tenha dito que as dispensas se deram sem justa causa.
A situação, revela a mesma reportagem, foi também bastante séria na greve do Maracanã, em setembro de 2011, cuja motivação, segundo Nilson Duarte, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada (Sitraicp), teria sido o fato de que “foram servidos aos cerca de 2.000 trabalhadores da obra macarrão e feijão estragados, salada com bichos e leite fora da validade”, o que fora negado pelo Consórcio Maracanã (Odebrecht, Delta e Andrade Gutierrez), por meio de nota. O local já havia sido alvo de uma greve, um mês antes, agosto de 2011, por causa de uma explosão no canteiro que feriu um trabalhador.
Relata-se, ainda, que em Manaus (AM), na Arena Amazônia, houve paralisação de um dia, em 22 de março de 2012, porque conta do valor da cesta básica que estava sendo paga aos operários, R$ 37, enquanto que “de acordo com pesquisa do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos ), o valor da cesta básica, composta por 12 produtos, fechou o mês de março a um custo R$ 251,38 na capital amazonense”, tendo a greve se encerrado com o aumento da cesta para R$ 60, acompanhado da promessa da empresa de que iria “voltar a pagar hora extra aos sábados, o que parara de fazer três meses antes”.
Na arena de Pernambuco, no início de 2012, foi promovida a dispensa coletiva de 560 empregados, conforme destacado em reportagem de Paulo Henrique Tavares, que vale a pena reproduzir:
A sexta-feira marcou a volta aos trabalhos dos operários responsáveis pela construção da Arena Pernambuco, na cidade de São Lourenço da Mata. E como “boas-vindas”, 560 trabalhadores acabaram recebendo o comunicado de demissão. A expectativa da comissão organizadora da recente greve, que paralisou as obras do estádio por oito dias, é de que outros mil funcionários peçam a carta de dispensa até o fim da tarde.
Por considerar “abusiva e ilegal”, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT-PE) exigiu, na quinta-feira, a volta aos trabalhos dos grevistas, com penalidade de R$ 5 mil, por dia, ao sindicato da categoria, o Sintepav, em caso de descumprimento. Apesar da obrigatoriedade, a ideia dos remanescentes nas obras da Arena Pernambuco é praticar – como os próprios denominam – uma “operação tartaruga”.
“Eu vim preparado para ser demitido. Como não fui, a maneira que encontrei para ajudar meus companheiros é trabalhar de maneira lenta. Cada prego desta Arena irá demorar pelo menos um dia, para ser colocado”, disse um trabalhador, que preferiu não ser identificado. “Eu não tenho prazo para terminar a obra. Quem tem prazo é o governo.”
Antes das demissões, as obras para a Arena da Copa contavam com 2.437 trabalhadores. Já contando com as saídas desta sexta-feira, cerca de 250 novos operários se apresentaram para o trabalho, em São Lourenço da Mata. “Pelo número de polícias que estão aqui na obra hoje, acredito que eles e o governador Eduardo Campo devem colocar a mão na massa para levantar o estádio até a Copa do Mundo”, falou, em tom irônico, um dos novos desempregados.
Entre as reivindicações, os trabalhadores exigiam aumento de benefícios, como cesta básica de R$ 80 para R$ 120, maior participação nos lucros e resultados (PLR), Plano de Saúde para os profissionais e ajudantes, além de abono dos dias parados e estabilidade de um ano para a comissão dos trabalhadores.
A questão pertinente às condições de trabalho chegou a tal extrema que, na Arena do Grêmio (que não está integrada aos jogos da Copa, mas se alimenta da mesma lógica), em outubro de 2011, os próprios trabalhadores pediram sua demissão, como “forma de protesto pelas condições de trabalho impostas pela empreiteira. A maioria dos trabalhadores é do Maranhão e retornará ainda hoje para seu estado natal.”
No estádio do Itaquerão, os operários disseram, em janeiro de 2014, à reportagem do UOL que estavam recebem salário “por fora” (que impede a tributação e não se integra aos demais direitos dos trabalhadores), “para trabalhar mais do que o previsto pelo acordo e evitar que a inauguração do palco de abertura da Copa do Mundo atrase ainda mais”. Segundo consta da reportagem, “Um soldador que trabalha na obra contou à reportagem que espera receber um salário quatro vezes maior do que o normal neste mês devido às horas extras irregulares que está fazendo”.
Segundo a reportagem, o acordo em questão, firmado com o aval do Ministério do Trabalho e Emprego, em 19 de dezembro de 2013, foi o de que estaria autorizado o trabalho em até duas horas extras diariamente, sendo que, anteriormente, dizem os trabalhadores, havia jornadas de até 16 horas. E, presentemente, as horas além das duas extras permitidas, que já é, por si, grave afronta à Constituição, eram trabalhadas sem marcação em cartão de ponto. “Eles [os chefes] falam para a gente: ‘Não pode atrasar’. Ainda tem muita coisa pra fazer e às vezes é melhor mesmo você trabalhar umas horinhas a mais num dia para terminar uma tarefa e já começa num ponto mais a frente no dia seguinte”, disse à reportagem um ajudante de pedreiro, de 23 anos, que, assim como os outros trabalhadores que conversaram com o UOL Esporte, pediu para não ser identificado.
Nos termos da reportagem, “Além do medo de perder o salário adicional, os funcionários da construtora disseram que foram orientados a não dar entrevistas. ‘Teve uma palestra no fim do ano para falar pra gente tomar cuidado com a imprensa, pra não ficar falando qualquer coisa porque isso só atrapalha a gente’, declara o ajudante de pedreiro.”
Como revela notícia publicada no jornal Folha de S. Paulo, edição de 23/03/14 (p. D-4), foram flagrados pelos jornalistas trabalhadores executando suas tarefas sem as mínimas condições de segurança e de uma subsistência digna em obra do centro de treinamento da seleção da Alemanha no sul da Bahia (Santa Cruz Cabrália).

9. O atentado histórico à classe trabalhadora

A maior parte dos problemas vivenciados pelos trabalhadores nas obras da Copa está ligada à sua submissão ao processo de terceirização e de precarização das condições de trabalho, que acabaram sendo acatados, sem resistência institucional contundente, durante o período de preparação para a Copa, interrompendo o curso histórico que era, até então, de intensa luta pela melhoria das condições de trabalho no setor da construção civil, que é o recordista, vale destacar, em acidentes do trabalho. Essa luta, implementada pelo Ministério Público do Trabalho, tendo como ponto essencial o combate à terceirização, entendida como fator principal da precariedade que gera acidentes, já havia sido, inclusive, encampada pelo Governo Federal, em 2012, ao se integrar, em 27 de abril, ao Plano Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho.
O fato é que o evento Copa, diante da necessidade de se acelerarem as obras, acabou por jogar por terra quase toda, senão toda, a racionalidade que já havia sido produzida a respeito do assunto pertinente ao combate à terceirização no setor da construção civil, chegando-se mesmo ao cúmulo do próprio Superintendente Regional do Trabalho e emprego de São Paulo, vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego, Luiz Antônio Medeiros, um ex-sindicalista, declarar, sobre as condições de trabalho no Itaquerão, que: “Se esse estádio não fosse da Copa, os auditores teriam feito um auto de infração por trabalho precário e paralisado a obra. Estamos fazendo de conta que não vemos algumas irregularidades” (entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, em 03/04/14).
O período da preparação para a Copa, portanto, pode ser apontado como um atentado histórico à classe trabalhadora, que jamais será compensado pelo aludido “aumento de empregos”, até porque, como dito, tais empregos, no geral, se deram por formas precárias. Nas obras o que se viu e se vê – embora não seja visto pelo Ministério do Trabalho e Emprego – são processos de terceirização e quarteirização, sem uma oposição institucional, que, por conseqüência, produz o legado de grave retrocesso sobre o tema, que tende a se estender, perigosamente, para o período posterior à Copa.
Não se pode esquecer que quase todos os acidentes fatais acima mencionados, não por coincidência, atingiram trabalhadores terceirizados, e o Estado de exceção, acoplado ao silêncio institucional sobre as formas de exploração do trabalho (exceção feita a algumas iniciativas individualizadas de membros do Ministério Público do Trabalho) e acatado para garantir a Copa, acabaram servindo como uma luva a certas frações do setor econômico, que serão as únicas, repita-se, que verdadeiramente, se beneficiarão do evento, para desferir novo ataque aos trabalhadores, representado pela tentativa de fuga de responsabilidade da empresa responsável pela obra, transferindo-a à empresa contratada (terceirizada), que possui, como se sabe, quase sempre, irrisório suporte financeiro para arcar com os riscos econômicos envolvidos.
Sobre a morte de José Afonso de Oliveira Rodrigues, a construtora Andrade Gutierrez, responsável pela construção da arena em Manaus, defendeu-se, publicamente, dizendo que Martins trabalhava para a Martifer, empresa contratada para fazer as estruturas metálicas da fachada e da cobertura.
Quando da morte de Marcleudo de Melo Ferreira, também na obra da arena de Manaus, a Andrade Gutierrez repetiu a estratégia, expressando-se em nota:
É com pesar que a Construtora Andrade Gutierrez informa que por volta das 4h da manhã de hoje, 14/12/2013, o operário Marcleudo de Melo Ferreira, 22 anos, natural de Limoeiro do Norte – CE, funcionário de empresa subcontratada que presta serviços na montagem da cobertura da Arena da Amazônia, sofreu uma queda de uma altura de cerca de 35 metros, sendo socorrido e levado ao Pronto Socorro 28 de Agosto ainda com vida, onde não resistiu aos ferimentos e veio a falecer nesta manhã.
Reiteramos o compromisso assumido com a segurança de todos os funcionários e que uma investigação interna está sendo feita para apurar as causas do acidente. As medidas legais estão sendo tomadas em conjunto com os órgãos competentes.
Lamentamos profundamente o acidente ocorrido e estamos prestando total assistência à família do operário. Em respeito à memória do mesmo, os trabalhos deste sábado foram interrompidos. – grifou-se
Igual postura foi adotada pela Odebrecht Infraestrutura, responsável pela obra do Itaquerão, no que tange às mortes de Fábio Luiz Pereira e Ronaldo Oliveira dos Santos. Eis a nota publicada:
A Odebrecht Infraestrutura e o Sport Club Corinthians Paulista lamentam informar que no início da tarde de hoje um acidente na obra da Arena Corinthians provocou o falecimento de dois trabalhadores – Fábio Luiz Pereira, 42, motorista/operador de Munck da empresa BHM, e Ronaldo Oliveira dos Santos, 44 anos, montador da empresa Conecta. Pouco antes das 13 horas, o guindaste, que içava o último módulo da estrutura da cobertura metálica do estádio, tombou provocando a queda da peça sobre parte da área de circulação do prédio leste – atingindo parcialmente a fachada em LED. A estrutura da arquibancada não foi comprometida. Era a 38ª vez que esse tipo de procedimento realizava-se na obra e uma peça de igual proporção foi instalada há pouco mais de uma semana no setor Sul do estádio. Equipes do corpo de bombeiros estão no local. No momento, todos os esforços estão concentrados para oferecer assistência total às famílias das vítimas.
E para demonstrar que a terceirização, com a utilização da estratégia de se eximir de responsabilidade, não é privilegio da iniciativa privada, quando houve a morte de José Antônio do Nascimento na obra do Centro de Convenções do Amazonas, desenvolvida pelo Centro de Gestão Metropolitana do Município de Manaus ao lado da Arena da Amazônia, a entidade em questão expediu a seguinte nota:
O funcionário da Conserge, empresa que presta serviço para a Unidade de Gestão Metropolitana, José Antônio da Silva Nascimento, de 49 anos, morreu de infarto por volta das 9h da manhã deste sábado (14 de dezembro), quando trabalhava nos serviços de limpeza e terraplanagem para o asfaltamento do Centro de Convenções da Amazônia, localizado na Avenida Pedro Teixeira.
José Antônio se sentiu mal quando subiu em uma caçamba. Uma ambulância do Samu foi acionada imediatamente para realizar o atendimento, mas o trabalhador não resistiu. A Conserge está dando toda a assistência necessária à família da vítima.
Segundo a família de José Antônio, este trabalhava sob pressão devido ao atraso na obra. “Ele trabalhava de domingo a domingo”, afirmou sua cunhada, Priscila Soares.
Por ocasião da morte de Antônio José Pitta Martins, técnico especializado em operações de guindastes de grande porte, que veio de Portugal para trabalhar na obra da Arena da Amazônia, tendo sido atingido na cabeça por uma peça de ferro que se soltou de um guindaste, novamente a fala se repete. Em nota oficial, a empresa responsável técnica pela obra, Andrade Gutierrez, destaca que o trabalhador não era seu empregado, ao mesmo tempo em que deixa claro que “o acidente não interferiu no seguimento das obras”
Eis o teor da nota:
NOTA DE ESCLARECIMENTO
A Construtora Andrade Gutierrez informa que, por volta das 8h da manhã de hoje, 07/02/2014, um técnico de guindaste de grande porte, funcionário da empresa Martifer, sofreu um acidente nas dependências do sambódromo enquanto desmontava a máquina utilizada nas obras da Arena da Amazônia. O guindaste, que auxiliava os trabalhos da Arena, já estava com as operações encerradas desde 11/01/2014 e desmobilizado em uma área externa. O operador foi socorrido pela equipe de Segurança do Trabalho e levado pelo SAMU até o hospital 28 de Agosto, onde teve seu quadro de saúde estabilizado e foi transferido para o hospital João Lúcio. O acidente não interferiu no seguimento das obras da Arena da Amazônia. – grifou-se
A empresa Martifer Construções Metalomecânica S/A, por sua vez, emitiu nota de pesar, noticiando que iria “apurar as causas do acidente”.
A última morte foi a de Fabio Hamilton da Cruz, que se deu em acidente ocorrido no Itaquerão, após uma queda de oito metros de altura. Fabio, conforme foi várias vezes frisado pelos envolvidos, com difusão na imprensa, era empregado da WDS, uma subcontratada da Fast Engenharia, que fora contratada pela AmBev, que aceitou bancar os 38 milhões de reais para colocação de arquibancadas provisórias, exigidas pela FIFA para que o estádio tivesse a capacidade de público necessária para receber a abertura da Copa do Mundo.

10. A culpabilização das vítimas

A respeito do acidente de Fábio Hamilton da Cruz, o Delegado designado para verificação do ocorrido, após ouvir alguns relatos, um dia depois do ocorrido, sem a realização de qualquer laudo técnico, já concluiu que teria havido um “excesso de confiança” da vítima.
Essa foi, ademais, outra forma de agressão aos direitos dos trabalhadores que a pressa para a realização da Copa acabou reforçando, a da culpabilização da vítima nos acidentes do trabalho.
Ora, como o próprio nome diz, o acidente do trabalho é um sinistro que se dá em função da realização de trabalho em benefício alheio, ao qual, independente da postura da vítima, fica obrigado a reparar o dano, já que o risco da atividade econômica lhe pertence (art. 2º. da CLT) e, consequentemente, é de sua responsabilidade o cuidado com o meio ambiente de trabalho.
É extremamente agressivo à inteligência humana, servindo, inclusive para fazer prolongar no tempo o sofrimento da vítima ou de seus familiares, o argumento, daquele que explora com proveito econômico o trabalho alheio, de que “vai apurar” o ocorrido, deixando transparecer no ar uma acusação, que nem sempre é velada, de que a culpa pelo acidente foi do trabalhador.
Veja-se, por exemplo, o que se passou no caso do Raimundo Nonato Lima Costa, que morreu após uma queda de 35 metros na Arena da Amazônia. Em nota de pesar pela sua morte, a responsável técnica pela obra não teve o menor receio, inclusive, de fazer uma acusação generalizada aos trabalhadores, apontando-os como responsáveis por sua própria segurança. Diz a nota.
NOTA DE PESAR
A Andrade Gutierrez lamenta a morte do operário Raimundo Nonato Lima Costa, ocorrida na noite desta quinta-feira, durante o turno noturno da obra da Arena da Amazônia. A empresa providenciou apoio imediato à família do funcionário e aguarda o resultado dos trabalhos da perícia técnica que foi iniciada pela Polícia Civil com o objetivo de apurar as causas do ocorrido.
A Andrade Gutierrez reitera o compromisso assumido com a segurança de todos os seus funcionários e informa que intensificará o trabalho de conscientização dos operários com foco na prevenção de acidentes.
Por ocasião da morte de Marcleudo de Melo Ferreira, na mesma Arena, já mencionada acima, o secretário da Copa em Manaus, Miguel Capobiango, foi além na agressão aos trabalhadores e desferiu o ataque de que as duas quedas fatais até então havidas na Arena tinham sido fruto do “relaxo” dos operários na utilização dos equipamentos de segurança. “Usar o equipamento de segurança às vezes é chato e nem todos gostam de estar usando. O operário às vezes abre mão por preguiça, então ele relaxa, e é isso que agora nós não podemos deixar”. “Infelizmente, os dois acidentes aconteceram por uma questão básica de não cuidado do trabalhador no uso correto do equipamento.”
E, sobre a morte de Fabio Hamilton da Cruz no estádio no Itaquerão, disse Andrés Sanches: “Na vida, cometemos erros e excessos. Já dirigi carro a 150 km/h. Eu não bebo. Vocês já devem ter dirigido “mamados”. Infelizmente, cometemos erros que acabam em fatalidade. Realmente, é padrão na construção civil.”

11. O retrocesso social e humano da Copa

Bem se vê que o legado maléfico para os trabalhadores brasileiros com a Copa não está apenas nas más condições de trabalho e nos conseqüentes oito acidentes fatais (não se contando aqui os vários outros acidentes do trabalho que não resultaram em óbito), o que, por si, já constitui um grande prejuízo, ainda mais se lembrarmos que as obras para a Copa da África em 2010 deixaram 02 mortes por acidente do trabalho, está também na tentativa explícita de culpar as vítimas, buscando atingir a uma impunidade que reforça a lógica de uma exploração do trabalho alheio pautada pela desconsideração da dignidade humana.
A Copa já trouxe grandes prejuízos à classe trabalhadora e é preciso impedir que se consagrem e se prolonguem, mansa e silenciosamente, para o período pós-Copa. Não tendo sido possível obstar que o Estado de exceção se instaurasse na Copa é essencial, ao menos, não permitir que ele continue produzindo efeitos.
O passo fundamental é o de recuperar a consciência, pois a porta aberta às concessões morais e éticas para atender aos interesses econômicos na realização da Copa tem deixado passar a própria dignidade, o que resta demonstrado nas manifestações que tentam justificar o injustificável apenas para não permitir qualquer abalo na “organização” do evento. Foi assim, por exemplo, que o maior atleta do século XX e melhor jogador de futebol de todos os tempos, o eterno Pelé, chegou a sugerir, mesmo que não tenha tido uma intenção malévola, que mortes em obras são fatos que acontecem, “são coisas da vida” e que se preocupava mesmo era com o atraso nas obras dos aeroportos; que o competente e carismático técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, ainda que sem querer ofender, afirmou que a solução para o problema do racismo no futebol é ignorar os “babacas” que cometem tais ofensas, pois puni-los não resolve nada; e que o Ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, cogitou pedir para que os cidadãos brasileiros economizassem energia a fim de que não faltasse luz na Copa.
A postura subserviente, para satisfazer os interesses da FIFA, chegou ao ponto extremo de algumas cidades, como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Cuiabá, Natal e Fortaleza, terem atendido pedido feito, com a maior cara de pau do mundo, pelo secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, para que as cidades sedes de jogos da Copa concedessem transporte gratuito – algo que o Movimento Passe Livre está lutando, e sofrendo, para conseguir há anos –, sendo que a concessão, diversamente do que tem buscado o MPL, não se destina às pessoas necessitadas, mas aos torcedores dos jogos da Copa, que possuem condições financeiras para pagar os altos preços dos ingressos, que chegaram a ser vendidos, no paralelo, por até R$91 mil…
É de suma importância deixar claro, para a nossa compreensão e para a nossa imagem no mundo, que temos a percepção de todos esses problemas, que não o aprovamos e que estamos dispostos a enfrentá-los e superá-los.
O autêntico efeito positivo da Copa – realizada, ou não – será a constatação de que a classe trabalhadora se encontra em um estágio de consciência que lhe permite compreender que a Copa reforça e intensifica a lógica da exploração do trabalho como fonte reprodutora do capital, favorecendo ao processo de acumulação da riqueza, ao mesmo tempo em que permite a institucionalização de uma evasão oficial de divisas. A partir dessa compreensão, a classe trabalhadora não se deixará levar pela retórica de que o dinheiro dos turistas vai estimular o crescimento e gerar empregos, até porque ao se inserir na mesma lógica capitalista o dinheiro não é revertido à classe trabalhadora, à qual apenas é remunerada, sem o necessário equivalente, pelo trabalho prestado, direcionando-se, pois, a maior parcela do dinheiro em circulação em função da Copa às multinacionais aqui instaladas, especialmente no setor hoteleiro e nas companhias aéreas.
Cada trabalhador, pensando em sua atividade e em seu cotidiano de ganho e de trabalho durante a Copa, ou antes, que responda: teve ou terá algum ganho na Copa que não provenha do trabalho? Este trabalho é prestado em que condições? O eventual acréscimo de ganho está ligado ao aumento da quantidade de trabalho prestado? Que o digam, sobretudo, os jornalistas!!!
Claro que uma ou outra experiência comercial exitosa, desvinculada da dos protegidos da FIFA, pode ocorrer, mas isso por exceção. E, cumpre repetir: mesmo que no geral a Copa produza resultados econômicos satisfatórios, não se terão, com isso, justificadas as supressões da ordem jurídica constitucional, já havidas no período de preparação para o evento, e as violências sofridas por diversas pessoas, e, em especial, a classe trabalhadora, no que tange aos seus direitos sociais e humanos.
Este é o ponto fundamental: o de não permitir que a Copa e a violência institucional posta a seu serviço furtem a nossa consciência, que está sendo duramente construída, vale lembrar, após 21 anos de ditadura, seguida de 15 anos de propaganda neoliberal. A produção dessa consciência é extremamente relevante para que o drama das diversas pessoas, vitimadas pela Copa, não se arraste por muito mais tempo, sofrimento que, ademais, só aumenta quando, buscando não abalar eventual euforia da Copa, se tenta desconsiderar a sua dor, ou quando, partindo de uma perversão da realidade, argumenta-se que as pessoas que são contra a Copa (mesmo se apoiadas nos motivos acima mencionados) fazem parte de uma conspiração para “contaminar” a Copa, apontadas como adeptas da “violência”, sendo que para a ação dessas pessoas (que, de fato, carregam um dado de consciência), o que se reserva é o contra-argumento da “segurança pesada”.
O desafio está lançado. O que vai acontecer nos jogos da Copa, se a “seleção canarinho” vai se sagrar hexa campeã, ou não, não é decisivo para a história brasileira. Já o tipo de racionalidade e de reação que produzirmos diante dos fatos sociais e jurídicos extremamente graves relacionados ao evento vai, certamente, determinar qual o tipo de sociedade teremos na sequência. Boa ou ruim, a Copa acaba e a vida concreta continua e será boa ou ruim na medida da nossa capacidade de compreendê-la e de interagir com ela, pois como já disse Drummond:

Foi-se a Copa? Não faz mal.
Adeus chutes e sistemas.
A gente pode, afinal,
cuidar de nossos problemas.

Faltou inflação de pontos?
Perdura a inflação de fato.
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.

O povo, noutro torneio,
havendo tenacidade,
ganhará, rijo, e de cheio,
A Copa da Liberdade.


São Paulo, 21 de abril de 2014.