terça-feira, 5 de maio de 2015

Ando com medo da morte


Ainda em janeiro, estava eu em lhabela quando recebo a notícia da morte prematura de Canek Guevara. Sim, com esse sobrenome, ele era neto de Che e deixou o nosso plano aos 40 anos. Estava com a amiga Ana Paula Galvão quando esse mundo despencou em minha cabeça.

Canek Guevara tinha uma composição com Bruno Morais e eu, mas dessas bizarrices de dias atuais, eu nunca conversei com ele presencialmente. Nunca escutei sua voz, mas tenho tudo registrado pelos meios digitais. Com minha mãe é exatamente o contrário. Nunca troquei uma única palavra com ela pelos computadores. Isso é muito louco, mas o que me incomoda na morte é a interrupção. Se não falei com ele, já não falaria nunca mais.

Ando com medo de morrer, mas corro com medo de morrer também. Isso por que corro distâncias relativamente grandes, então é comum sair de casa de noite para correr e passam-se minutos, as vezes horas de completa solidão e o mundo passando em minha cabeça. Uma delas: E se eu passo mal? E se eu apago aqui? E se eu entro em processo de interrupção contínua com o resto das pessoas que conheço? Isso é o que realmente me angustia.

Amigos, amores, colegas de trabalho. Relações que desandam e que muitas vezes não fazemos força para reverter com a sensação de que pode ser depois esse nó desfeito e daí vem a morte e encerra tudo. Tenho sim minhas pendências emocionais dos quais fujo para não resolver, por isso tenho tido uma vontade pelo menos de zelar pelos que me cercam. Seja ele quem for.

Semana passada quando saia para correr, um dos porteiros noturnos do prédio me avisam que Diego havia falecido. Um dos porteiros diurnos. Super novo. 49 anos, mas estava instaurada a interrupção contínua entre uma pessoa e eu outra vez. 

Ele que tanto quis fotografar no meu projeto intitulado Red Zone (visto que um dos porteiros já havia sido e pretendo desde que queiram, fotografar cada um). Eu só posso pensar sobre esse meu medo da morte de ser descuidado para com quem me rodeia. A Red Zone virou quase um café filosófico. Uma busca de sentido da vida não é mesmo Rafael Andrade? E um aprendizado. Sinto que A leveza que tenho pregado como uma filosofia pessoal minha já se encontra incompleta Marina Stoler.

Hoje eu penso em "Leveza e fluidez", afinal se pode ser leve e não fluido. Se pode ser fluido e não leve. Talvez uma hora eu escreva sobre isso. Por hora, deixa eu ir viver, afinal, ando com medo de morrer...

segunda-feira, 16 de março de 2015

A controversa Marina Abramovic



Engraçado que nesse novo mundo pós internet, o pop passa literalmente pelas grandes redes e algumas pessoas atingem um público de uma forma diferente de décadas atrás. Quando comecei a pensar em Marina para escrever, em minha cabeça quis traçar analogias para melhor situar essa artista que não é unanimidade, mas que te faz pensar. A pessoa que pensei foi filósofo Slavoj Zizek, Eslovêno, ex Iugoslávia. Ele um filósofo pop que é parado na rua para dar autógrafo. Marina nasce também na ex Iugoslávia, mas na Sérvia. Ela poderia ser mais pop? Não tenho dúvidas a respeito, mas como um filósofo, ela está ali para te fazer pensar e já teve artistas do mundo pop do calibre de Jay-z e Lady Gaga em busca de aulas com ela para enriquecer o seu envolvimento com o público.

Ela se considera a avó da performance nessa modalidade artística um tanto quanto nova e por muitas vezes controversa. Existe uma infinidade de trabalhos dela na internet e se sua curiosidade aguçar, siga em frente. Hoje eu me prendo apenas ao que está sendo veiculado no Sesc Pompéia e em específico à vivência do "Método Abramovic".

Existe uma exposição aberta ao público no qual logo você vai perceber o quanto a obra dela é feita para te fazer pensar, te tirar da zona de conforto e não é exatamente feita para ser bonita. Fazer pensar, questionar inclusive ela mesmo talvez seja o seu forte e assim fui para a vivência do "Método Abramovic" após saber que existia fila desde 5 da manhã para ver sua palestra 13:00h, mas vamos ao que interessa. O "Método Abramovic".

Ao todo, sua experiência levará cerca de 2h30. A sua primeira experiência é assistindo um vídeo on de uma séria de exercícios são propostos para abrir a sua percepção do mundo ao redor. Dali até o final do método, ninguém fala mais nada. Os exercícios trabalham com uma certa oxigenação que pessoas despreparadas podem se sentir mal. Alías, embora não tenha percebido ninguém passando mal, o papo que corria entre os que participavam da vivência era que no dia anterior teve gente que saiu antes da conclusão da vivência. Eu para ser sincero, não tinha medo da parte física, mas da psicológica.

Ao fim desse vídeo e dos exercícios, o grupo é dividido entre 4 subgrupos. Cada participante recebe um fone de ouvido com uma certa pressão que tem a função de vedar o som ao redor e te isolar ainda mais. Daí para a frente, você vai passar por 4 vivências. Caminhando, deitado, sentado e em pé e a ordem vai depender do grupo que você pegou.



O meu grupo foi para as cadeiras com os cristais cravados. Meia hora ali. Explorei a textura de tais materiais e prestei atenção em meu campo visual dos outros 3 grupos, mas para a mente agitada das grandes cidades, isso acontece rapidamente, então a dificuldade de manter-me parado. Simplesmente isso. Resolvi fechar os olhos e olhar para dentro de mim até a hora apontada pelos monitores para seguir para o próximo grupo.



Fui então para o grupo da caminhada, mas não é uma simples caminhada. Em meia hora, você deve andar uns 40 ou 50 metros. Para eu que corro, andar tão lentamente é surreal, mas em passos em "câmera lenta", você consegue pensar em muita coisa entre um passo e outro e perceber a relação de seu corpo nesse processo. Você é capaz de sentir o seu ponto gravitacional mudando,  e com minha mania de corredor, experimentei diferentes passadas no período. A única coisa que eu fazia era tentar ter um movimento equilibrado. Quase como um exercício de pilates, eu tentava entender o meu corpo e me realinhar.



A próxima meia hora foi deitado em uma cama também de madeira e cristais. Achei que poderia cochilar ali deitado, mas pude perceber inclusive o movimento lento das nuvens através de uma janela na cobertura do Sesc. Depois, fechei os olhos, me entreguei ao relaxamento e ao tempo dado a mim mesmo para relaxar. Entendo que cada um deva acabar tendo uma experiência única e diferente. Ela te propõe um encontro com você. Quase meditativo e religioso. Entendo que muita gente possa achar aquilo uma completa perda de tempo, assim como algumas pessoas podem sentir algo quase transcendental.



Na minha quarta e última experiência, toda a calma me foi roubada, afinal ficar meia hora em pé em uma pequena plataforma de madeira com 3 lanças de cristal apontado para você não é a coisa mais confortável do mundo. Inicialmente estava eu outra vez sentindo a textura da madeira e cristal, mas depois de uns 5 minutos... ficar de pé... Ocorreu-me algo que eu realmente não esperava. Eu tenho dores por correr e uma dor crônica em meu tornozelo direito pode de uma hora para outra simplesmente me afastar dessa atividade física. Aula de pilates tem sido feita para que eu possa minimizar esses problemas. Minha fisioterapeuta insiste que eu jogo mais peso para o lado direito do corpo causando esse desequilíbrio. Penso nisso cada vez que estou correndo e não conseguia concordar muito. Andar os 30 minutos também me fez refletir sobre aquilo, mas enfim, ali, parado, descobri que quando em pé, apoio sim do lado direito. Isso me foi uma descoberta monstruosa e fascinante de alguma forma. Passei o resto do tempo tentando equilibrar o peso e tentando entender qual a razão para eu fazer isso. A resposta? A música....meu pé direito é a minha base quando toco e vai saber quantas horas nessa minha vida toquei...

Acredito que essa experiência pode não representar absolutamente nada para algumas pessoas. Algumas como relatado, não vão sequer aguentar fisicamente, mas algumas pessoas podem simplesmente achar chato, desinteressante, tedioso e acho que de fato pode ser. Depende da entrega de cada um. Eu que fui com a expectativa não tão alta assim e mais "querendo ver para crer", descobri esse desequilíbrio corporal graças a vivência, então, serei eternamente grato e provavelmente me lembrarei por muito tempo disso.

No final das contas, é um tempo em que você da para você mesmo para se conhecer...

Eu me conheci....


quinta-feira, 12 de março de 2015

...



Queria estar tão seca quanto o Cantareira.
Dentro de mim os reservatórios estão 100%.
Fez-se água de ontem para hoje. 
Há 1 semana faltava água, hoje transbordou e alagou tudo. 
Tem gente que simplesmente se tranca e deixa fluir.
Eu deixo fluir, mas não conserto os vazamentos.

Sempre coloco um band-aid pra ver se arrumo.
Meu encanador desapareu. Ele vinha e consertava tudo. Tapava todos os buracos. Vinte e quatro horas depois que ele desaparecia, um buraco destampava, três dias depois tudo estava alagado de novo.
Eu coloquei o dedo, como se fosse um pano, para estancar a água, mas cansei de segurar e soltei.
Estou tentando achar outro encanador, porque o meu está sumido há semanas.
Ele até me ligou e disse que daria uma passada para resolver o meu problema, mas depois sumiu.
Diversos amigos passam aqui para ajudar a ver o meu problema, até dão um jeitinho, mas quando eles saem tudo volta. Outros passam e dão conselhos do que eu tenho que fazer. Acontece que eu já sei o que eu tenho que fazer, só não consigo colocar em prática.
A única coisa que eu queria é o cara que sempre cuidou direito dos vazamentos. Eu sou assim, gosto do tradicional.



Texto de Mariana Tegon

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Últimos dias de Ron Mueck na Pinacoteca

Parece que sim. Estamos em uma fase onde as pessoas estão mais interessadas em cultura? As exposições estão mais acessíveis? O importante é a selfie para as redes sociais? Tudo isso ao mesmo tempo?

Nunca é tão simples responder algumas questões, mas desde as exposições de Kubrick e Bowie no Mis, as exposições tomaram uma popularidade que impressiona pelas filas. Nas exposições de Dali no Instituto Ohtake eu já havia esperado 2h45 para entrar na exposição. O mesmo aconteceu em plena segunda de carnaval com Ron Mueck na Pinacoteca do estado. Vale a pena ir? Sim, muito, mas leve um livro, algo para estudar na fila e uma boa disse de paciência.

Dentro do prédio na verdade você vai encontrar apenas 9 obras e um vídeo de 52 minutos. Digamos que você não tenha vontade de ver o vídeo e não perca muito tempo com a análise das obras e em 20 minutos acaba a exposição para você.

Ron é australiano e filho de uma família alemã fabricante de brinquedos onde ainda criança teve contato com técnicas de criação de bonecos. Seu trabalho é assombroso no quesito realismo. Não fosse as escalas alteradas para mais ou menos e algumas pessoas jurariam ser pessoas reais.


A primeira obra vista, nada mais é do que seu auto retrato. Não entre na sala, veja e saia. Contorme a grande máscara e atente aos detalhes.



Já Drift (a deriva) mostra um homem em  em uma imensidão azul.


Young couple mostra um jovem casal e também impressiona nos detalhes, mas por incrível que pareça, também nas sensações psicológicas que parecem se alterar enquanto você rodeia e analisa a obra.


As sensações psicológicas não param com a imparcialidade da face dessa mãe carregando compras ou da solidão do homem no bote abaixo:



Infelizmente a quantidade de pessoas na exposição não permite que você possa ver de longe essa obra para te remeter a solidão. Uma vista lateral de longe com a iluminação projetada para essa sensação seria a situação ideal, mas tem sim a invasão da selfie generation atrapalhando. Abstraia e e concentre na obra de Ron que pode ser provocadora cono em um grande frango morto e depenado pendurado. Os detalhes dos músculos mortos e flácidos. O corte dilacerante em sua garganta não possuem compromisso com uma zona de conforto. Pode ser indigesto para algumas pessoas e sensacional pela perfeição.


E o que nos quer passar Ron com a mulher com galhos e nua ou o jovem com um corte profundo na altura de suas costelas? Falar de riqueza dos detalhes a essa altura é chover no molhado:



No final, o simpático casal debaixo do guarda-sol nos faz sentir pequenos. Eles são enormes e as riquezas nos detalhes em coisas sutis como a pele retesada no braço com a mão de seu companheiro repousada sobre ela. A aliança apertada, as unhas dos pés. Não se canse de procurar detalhes.



Apesar desse fenômeno pop que está acontecendo, vale a pena esperar a fila, pessoas sem educação mais preocupadas com a própria selfie. O único senão que eu teria especificamente nessa exposição na Pinacoteca é que existe uma fila para idosos, gestantes, crianças de colo, pessoas com dificuldade de mobilidade e existe o velho jeitinho brasileiro. Mesmo essa fila é grande e tão grande estão que as filas começam do lado de fora da Pinacoteca, mas quando estava perto de entrar, era possível ver carros entrando para estacionar com pessoas com esse privilégio da fila preferencial. Eles deveriam então sair para a sua fila, mas já estavam ali dentro e furavam a fila preferencial entrando em dez ou quinze minutos. Isso seria um ponto falho na organização da Pinacoteca, o restante, eu acho que está valendo e mesmo eu, tirei minha selfie depois de apreciar toda a exposição (e a primeira obra não seria um tipo de selfie?)



E exposição se encerra dia 22 e é bom conferir horários especiais expandidos para que você consiga ver.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Feliz ano novo (ou a delícia e a praga que é o carnaval)

Sabe aquele monte de promessa feita no começo do ano?

Digamos que você tenha feito uma lista de afazeres. Quanto dela já andou?

óbvio que não precisa ser seguida ao pé da risca, mas sendo hoje dia 18 de fevereiro, temos já 13,42% do ano transcorrido, então se sua lista não está nem em 10%, saiba que você está atrasado em seu compromisso com você mesmo (e olha que com o estimulo do fim do ano, ela pode estar além disso).

Então temos o carnaval nessa vida de alegria e atraso de nosso Brasil. Não condeno de forma alguma o carnaval, mas que a sensação de que finalmente o ano começa é confirmada entra ano, sai ano...




P.S.: Longe de mim querer ditar regra e se alguém souber de algum bloco ainda hoje, pode me chamar ok?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

O que representa a morte de Tomie Ohtake?


Mais especificamente, o que representa a morte de Tomie Ohtake para mim?

Para ser sincero? Uma reflexão e um profundo respeito por uma pessoa que se vai.

Embora seja da área das artes, eu desconheço quase que por completo sua obra. Vergonha por isso? Sinceramente não. Não existe tempo no mundo para se conhecer tudo. Não conheço todos os músicos do mundo. Para ser sincero? Existem músicos que cravaram seu nome na história e mesmo assim, eu que estudo e pesquiso sobre música, não consegui ouvir todos, logo, não posso ver demérito algum em não conhecer a obra dessa artista que se foi.

Quando seu nome me surge, o prédio do Instituto Tomie Ohtake me vem na memória e eu acho ele  uma verdadeira obra de arte, mas nem o prédio foi projetado por ela e sim por seu filho.

Onde quero chegar com isso?

É que me espanta, me incomoda de certa forma, a comoção causada por ela nas redes sociais. Estão falando do assunto da semana ou de fato conheciam a artista?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Dia do frevo

Para começo de conversa, existe uma controvérsia sobre o dia do frevo. Se você der uma pesquisada, pode encontrar a data de 14 de setembro como a data onde o ritmo é celebrado, mas se em Recife a comemoração se da em 9 de fevereiro, quem sou eu para discordar dos irmãos pernambucanos?

O frevo é um ritmo genuinamente brasileiro onde temos também a dança específica para esse ritmo e ela nasceu em Pernambuco da fusão de marcha, maxixe e até elementos da capoeira.

Declarado patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco, o frevo tem origem em Recife no final do século XIX e tem um andamento acelerado. A prática de disputa entre os blocos de rua faziam com que seus andamentos fossem cada rápidos e as execuções das peças definitivamente não são para músicos de primeira viagem.

A palavra frevo vem de ferver que por corruptela, frever e seu significado é efervescência, agitação, confusão, rebuliço, apertão nas reuniões de grande massa popular nas ruas.

O grupo Efrevessência percebendo a riqueza desse ritmo genuinamente brasileiro tem seu trabalho pautado em música instrumental que dialoga com outros ritmos mas que tem o frevo como sua mola propulsora.

Afaste os móveis da sala, pegue sua sombrinha e arrisque uns passos que o Efrevessência garante a música:


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Palmeiras x Corinthians



Prometo não me manifestar sobre resultado do jogo, seja ele qual for, após a peleja.

Venho aqui apenas desejar sorte ao ex-popular esporte. Pelo menos do ponto de vista financeiro...

O ingresso mais barato se você não é sócio torcedor? R$100,00 Da para alugar uma tv à cabo e ver todos os jogos de seu time não é?

Não existisse apenas esse verdadeiro legado da copa que são esses preços completamente excludentes, temos ainda um confrontamento no mínimo no terreno da piada e escárnio para com o adversário e que pode chegar ao confrontamento físico. Foi-se o tempo em que torcedores adversários podiam caminhar no meio da outra torcida e na boa, penso que regredimos desse ponto de vista.

Entre meus amigos próximos, é conhecida uma história da qual cai sem querer no meio da torcida do Santos com a camisa adversária. Senti medo, mas pensei, isso está errado.

O futebol me da o direito de dentro desse território poder xingar e ser violento com o próximo?

Eu só queria que hoje, houvesse um bom espetáculo dentro das 4 linhas, mas ouvir qualquer coisa que ultrapasse o campo de jogo, infelizmente é normal...

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Red Zone

Final de 2014, começo de 2015 e aquela chuva de frases de efeito sobre o que fazer de diferente no ano vindouro. Não que eu não pudesse fazer o mesmo e já devo ter feito em outro momento de minha vida como posso vir a fazer numa situação futura, mas dessa vez resolvi fazer em vez de apenas falar.

A "Red Zone" não é nada mais do que uma simples parede vermelha com um puff também vermelho que muitas vezes se confundem no qual qualquer outra coisa torna-se facilmente contrastável. O que fiz? Resolvi fazer uma brincadeira onde todas as pessoas que passam pela minha casa (desde que queiram entrar na brincadeira) sejam fotografadas nesse mar vermelho. Conhecendo-se ou não. Nada, exceto esse vermelho liga as pessoas. O máximo que tentei fazer, foi buscar um momento, uma posição não convencional. Várias das fotos são feitas enquanto a pessoa ainda conversa comigo e quando ela começa a se preparar para o clima, a foto já está feita. Houve uma ocasião em que um único clique foi o suficiente, enquanto em outros casos, pode-se der deflagrada algumas dezenas de imagens para juntos escolhermos uma. Só publico se a pessoa estiver de acordo e estiver satisfeito com o resultado.

O que isso tem a ver com o final de 2014 e as frases de efeito? Bem, eu não proclamei frase alguma, apenas tive essa ideia para encontrar, reencontrar e olha lá se não conhecer gente através da "Red Zone". Bater um papo, tomar um café, encontrar as pessoas e principalmente viver uma vida fora dos computadores (ok... se não fosse a vida nos computadores, provavelmente você não tomaria conhecimento dessa minha intervenção, mas acredite, tem coisa interessante fora dela).

A intervenção artística por mim pensada é de cunho "produção zero". Sem iluminação, o que faz com que as fotos tenham que ser tiradas entre 7 e 19 horas e tiradas de meu celular. Como tenho vários amigos fotógrafos, vários ofereceram suas lentes para enriquecer a brincadeira, mas eu bati o pé. É uma desculpa para ver as pessoas com produção zero e até para manter a unidade entre as fotos já tiradas.

A próxima pessoa a ser mirada pela minha lente é Vanderson Santos que é um dos "cabeças" do site Mundo Blá . Falar e ver pessoas tem sido algo cada dia mais raro e fui radical. Quarta-feira é o dia oficial para que eu receba as pessoas para interagirem com a "Red Zone". Não que não possa ser feito qualquer outro dia, mas quarta tornou-se o dia para fazer isso. E embora eu não tenha projetado isso, as pessoas me encontram dizendo que querem por aqui aparecer.

Você é o próximo?































segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Amores contemporâneos: Como me apaixonei por um motoboy

Meu nome é Antonieta Coelha van Gaal, tenho 34, sou médica dermatollogista, filha de empresário judeu holandês. Vou contar a vocês como conheci o grande amor da minha vida.
Era uma tarde de muito calor em São Paulo e eu estava voltando da academia de ginástica; daquela só para mulheres. O suor e a roupa de malha realçavam ainda mais as belas curvas do meu corpo (desculpem minha ausência de modéstia).
Então ele passou por mim, na altura do Sesc Pompeia, na Lapa, bairro da Zona Oeste da capital paulista. Adanagílson fazia sua última entrega do dia. Tão logo me viu, ele mandou um: "TESUUUUDA!", acompanhado por uma ainda mais sonora buzinada. "Bi Biiiiii!".
Aquilo me deixou LOOOOOOOOUUUCA! Aproveitando o sinal vermelho, corri em direção ao sujeito, e dei-lhe uma voadora nas costas. No chão e bastante atordoado, ele gritava: "Desculpa, senhora! Desculpa, senhora!". E eu falei: "Desculpa nada, rapaz. Agora você vai ver!".
Não me preocupei em arrancar-lhe o capacete, mas suas calças. Com destreza libidinosa, manipulei a embreagem do figura. Entendendo minhas intenções, Adanagílson relaxou e fizemos amor ali mesmo, em plena luz do dia, no meio da Rua Clélia. Foi tão rápido que acabamos antes que o camburão da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), que trafegava nas imediações, chegasse.
Nossa filha Motonieta, 14, cujo nome é uma mistura do meu com a profissão do maridão, foi fruto daquele ato. Somos muito felizes. E sempre a instruo a prestar atenção em todas as cantadas e buzinadas de rua que recebe. Dependendo da entonação, da duração de certas vogais e da intensidade do toque da buzina, ela poderá identificar o grande amor da vida dela.


Texto de Ad Luna originalmente postado em http://interdependente.blogspot.com.br/

domingo, 4 de janeiro de 2015

Uma São Silvestre em minha vida

Cerca de meia-noite e acabo de falar com Marina, me despeço dela para dormir bem para a São Silvestre (o que no meu caso representa 4 ou 5 horas). Acordaria 5:00. Estava tudo bem dentro do meu planejamento. A última passada na cozinha, banheiro e me deito. Uma mensagem no celular e uma amiga em uma noite não muito feliz e talvez tenha levado 2 horas conversando com ela, afinal de contas, eu não era um corredor profissional e preferia ajudar uma amiga do que ter um tempo ligeiramente melhor. Meu tempo para dormir havia caído e agora estava abaixo do ideal e isso talvez tenha despertado a famigerada ansiedade. Empurrei o despertador para 5:45h mas demorei para dormir. Última vez que olhei ao relógio, ele apontava 3:50h

5:45h e o despertador toca e com 45 minutos a menos, não tinha tempo para fazer as coisas lentamente como inicialmente pensei. Comi, me vesti (havia tomado banho antes de deitar) e fui. Desço de elevador e ao chegar no carro, última vistoria de todo o apetrecho necessário que incluía desde o chip para corredores, quanto barra de cereal para comer durante a prova, passando por número do atleta (atleta? Eu? Produção?) e fones de ouvido para escutar o aplicativo que uso para correr. Havia esquecido o fone. Titubeei. Posso correr sem ele... não quis alterar o que sempre faço e perco alguns preciosos minutos indo buscar o fone.

De volta, pego o carro. Iria dirigir até o metrô Vila Madalena, mas nessas resoluções ansiosas que você não sabe se fato melhora alguma coisa, vou até a estação Sumaré e paro o carro. Desço na estação e quando passo na catraca do metrô... não passo. Não havia saldo no bilhete único e lá vai eu carregar o tal. Embora as 6:43h não houvesse fila, o bilhete único do qual uso por 11 anos teima em dar problema justo dessa vez. O que costuma levar uns 25 segundos não se concretiza em alguns minutos. A ansiedade toma cara de impaciência e desisto. Peço meu dinheiro de volta e em vez dela apenas me devolver R$10,00, ela faz questão de me dar a nota de R$20,00 dada para que eu devolva o troco que já estava solto dentro da carteira naquelas tradicionais sacolas de corredores onde você não encontra nada a não ser se praticamente virar a carteira inteira. Achei que não conseguiria chegar a tempo no ponto de apoio da 4any1 que estava marcado para 7:00h. 7:03h é atraso?

Largada seria apenas 9:00h, então estava eu ali comendo mais alguma coisa e após as últimas palavras com os treinadores Aulus e Edmilson, fui munido de uma pequena garrafa de água e duas barras de cereal para o vão libre do Masp onde me encontraria com Bruno de Almeida para instruções sobre a entrevista que daria ao vivo na corrida. A melhor parte na verdade foi ser colocado no pelotão elite b, onde encontrei para a minha surpresa Zélia Duncan.

– Hey querida, onde vai passar a virada?
– Em casa no Rio, termino a prova e vou para o aeroporto. Cansei de ficar abraçando quem nem conheço.
– Provavelmente o cara que te xingou meio-dia no trânsito né? – Risos de todos que estavam próximo.

Demétrius e Zélia

Havia gente se aquecendo por quase uma hora. Fiz o de sempre. Uns dez minutos apenas e conversando com Zélia, Vander de 65 anos que pagaria sua promessa depois de 50 anos e sua filha Janaína, que tornou-se treinadora de corridas e viabilizou o sonho do próprio pai.

Vander, o repórter Alexandre Oliveira e eu

Dada a largada e os poucos metros da elite fez diferença para eu ter uma largada correndo e não caminhando, mas logo, em questão de segundos, uma multidão já atropelava-me. Na saída da Paulista para o acesso da Dr. Arnaldo, seria impossível dizer que larguei em tal pelotão, mas eu corria e corria bem. Nem senti a primeira subida. Vi Zélia e tentei me concentrar. Exatamente enquanto pegava o primeiro trecho de subida considerada, o fone de ouvido me da o tempo (de cinco em cinco minutos), com a distância percorrida e percebi que entrei no ritmo de "estouro da boiada". Estava com o ritmo muito mais acelerado e ainda em subida. Isso poderia comprometer a minha corrida. Bendito fone.

Pequeno trecho da Dr. Arnaldo e a descida mais íngreme, o que é uma tentação de largar o pé e deixar a gravidade fazer sua parte, mas é um erro básico inicial de corredores. Dessa forma, muita gente me ultrapassa com velocidade absurda e eu tentando diminuir a velocidade segundo meu aplicativo. Foi difícil. Quando o relógio marcou dez minutos, eu havia baixado muito pouco desse tempo na verdade e então deixando já o estádio para trás sou encontrado pela equipe da Globo que tentaria uma entrevista comigo durante a corrida. Uma equipe contendo 4 pessoas da Globo correndo em minha volta e para efeito de garantia, a entrevista foi feita correndo duas vezes ao repórter Alexandre Oliveira. Dois minutos talvez tenha levado tudo? Qual o estado físico da equipe para acompanhar-me? Só sei que finalmente estava solitário na multidão e senti o quanto a entrevista quebrou minha concentração e ritmo. Senti que tinha que me concentrar para conseguir concluir.

Sim, correr é solitário e leva tanto tempo que o mundo passa por sua cabeça e muita coisa acontece ali. Na reta da Pacaembu eu serenei o coração e a alma e corri em direção a minha casa, entrei para o lado da Barra Funda e contornei o memorial da América latina. Locais que eu já havia corrido e que faz diferença para quem corre. Quando ele finalmente pega o viaduto Pacaembu, relativamente longo e pesado, ainda não senti, mas a temperatura também ia subindo e olhava a cada relógio de rua a temperatura. Tinha como estratégia não perder um só ponto de hidratação, afinal não consigo beber muito água enquanto corro. Basicamente molho a boca seca e tomo literalmente um gole. Despejo parte da água sobre o próprio corpo para diminuir a temperatura corporal e sigo em frente. Esse acabou sendo o trecho mais tranquilo, em compensação meu calvário começou no viaduto Eng. Orlando Murgel com mesmo nível de dificuldade técnica da Pacaembu.

Aquelas coisas que nunca acontecem acontecia de novo. O famoso pênis resolve se acomodar de um jeito incômodo dentro da bermuda. Correr incomodado por mais 7 km? Não, mãozona para dentro do short para reacomodar o garotão sob o risco de uma câmera registrar o corredor com a mão dentro das calças e um meme estourando logo no primeiro dia de 2015.

Agora eu entrava na avenida Rio Branco para pegar a Ipiranga e entrar na av. São João. Pô Caetano, eu pensei que alguma coisa aconteceria em meu coração, mas aconteceu no meu psicológico querendo me derrubar. Não sabia eu que o percurso forma um coração nesse trecho e que passaria pelo cruzamento de volta vendo uma multidão impressionante de corredores. Já corria por uma hora, mas o corpo sentia ter largado com velocidade acima da minha média.

Pouco mais de 12 km. Viaduto do chá. Logo mais estaria chegando na destemida av. Brigadeiro Luis Antônio e algo que nunca me aconteceu. Não fazia um calor tão forte assim visto os dias anteriores e já corri com temperaturas mais elevadas, mas sim, fazia calor e muito, mas eu, senti um calafrio rasgar minha coluna e senti frio. Um frio esquisito por cerca de 250 metros. Justo eu que não sinto frio, mas passou. Era apenas o psicológico. Eu que sou acostumado a gerenciar isso tendo que tocar em palcos por anos e anos estava agora fora da minha zona de conforto.

A Brigadeiro enfim chega. Olhar para aquela reta de 1,8 km subindo rumo a Paulista e gente gritando coisas de todos os tipos sendo para se encorajar, encorajar os outros ou sei lá o que, era visto. Também foi a hora que mais vi gente estirada no chão, gente desistindo, sentada nas calçadas, recebendo ajuda médica ou mesmo chorando. Também vi Zélia novamente e a danada me deixou para trás na Brigadeiro. Confesso que ao fim de escalar o temeroso trecho, mandei um – Chupa Brigadeiro (embora apenas mental),

Virei a direita e avistava a chegada. Voltando ao plano e já tão perto do fim, não senti mais esse final. Pelo contrário, entrei na efusão dos populares que incentivavam os corredores e correria mais 2 km fácil no plano se preciso fosse.

A medalha que tem uma representatividade muito mais simbólica do que real, estava em minhas mãos e voltei ao posto da 4any1. Só quem se aventura a correr algo do tipo sabe o quanto isso é algo de superação física e sabia que várias pessoas que havia conhecido nos últimos meses terminariam a prova. Entre eles, destaco Rita, Luiz e Viviane que sabia que terminariam a prova cada um com suas histórias, tempos e dificuldades, mas eu só iria embora depois que Flávia chegasse. A maior distância que ela havia feito até hoje era 12 km e embora nunca nem tenhamos conversado muito, vibrei internamente quando a vi chegando com a medalha e agora podia ir embora.



Entrei no carro, sentei e chorei. Não sei se foi de alegria, mas de tristeza não foi. Era um alívio e era bom. Das coisas que me propus a fazer na vida, a São Silvestre foi cumprida...

P.S.: Meu tempo foi de 1:37:33. Apesar das dificuldades, tempo ainda abaixo do que projetei.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O fim da democracia representativa...

Consegui passar todo o período das eleições sem me manifestar no quanto nosso sistema está falido. Resolvi que faria e falaria de política de outras maneiras do que ficar brigando com pessoas por um lado (mesmo por que não acredito nesses lados).


Uma única dúvida perturba a minha cabeça, afinal de conta, dos novos ministros, ao menos 3 respondem processos judiciais. São eles Kátia Abreu, Eduardo Braga e Helder Barbalho. Todos por sinal do PMDB que passou de 5 para 6 pastas no atual governo. Enquanto o povo briga por causa de PSDB e PT, o PMDB aprendeu a fazer o jogo ardiloso e sempre estar junto dos que estão no poder.

Aliás, esse ministério parece um prêmio do estado aos que se opõe ao povo. Kátia Abreu é conhecida como Miss Moto-serra por exemplo, Cid Gomes tem uma greve de cerca de cem dias das faculdades de seu estado e declara que se o professor não dê aula por dinheiro, que dê aula por amor. Tome o ministério da Educação. Aldo Rabelo de Ciência e Tecnologia mas já defendeu o não uso dela para não mexer na máquina como está. Sem contar Garotinho, Kassab...

A pergunta é:

Será que Aécio conseguiria montar um ministério tão ruim?

Diga-se de passagem, um ministério não com nomes técnicos para a pasta, mas com nomes que sabem fazer política (no pior uso da expressão)

É apenas o que eu acho...


P.S.: Mais do que na hora da população se inteirar de outras alternativas encontradas ao redor do mundo. De representativa, está aí o estado representando as empreiteiras que bancaram suas campanhas.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Joe Cocker para sempre

Fico feliz por olhar o que escrevi sobre ele em 2010 e achar que em nada muda a minha opinião.

Quantas vezes já não usei esse vídeo em aulas, palestras ou workshops?

Ainda digo mais. Se ele tivesse falecido exatamente após essa apresentação, de preferência passando mal e sendo televisionado, ele seria considerado o maior vocalista de todos os tempos, mas nós seres humanos que somos julgadores, falhos e completamente implacáveis com as pessoas, devemos nos lembrar do tiozinho de 70 anos que canta música de striptease.

Me lembro de já ter mostrado essa música para uma amiga que fez faculdade de música e que nos primeiros segundos em que ele abra a boca, ela já aponta "falhas técnicas" em sua performance.

Esqueça a técnica. Isso aqui é vida:



Ringo Starr dos Beatles foi exatamente uma das primeiras pessoas a comentar a ida dessa potente voz em sua conta no Twitter: "Adeus e Deus abençoe Joe Cocker, de um de seus amigos. Paz e amor. R. "


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Traçando outros caminhos II



Poucos dias atrás, escrevi sobre Lígia Oki que tornou-se estlista obedecendo a paixão de seu coração. Hoje veremos uma nova retomada de vida, dessa vez vivida por Elias Mendes. Ele tinha um caminho devidamente traçado dentro dos caminhos habituais de nossa sociedade. Cursava agrononmia e era só seguir em frente. Já estava com 2 anos de curso e vivências práticas em sua nova profissão, mas a preocupação pelo ser humano, o chamou em outras direções. Preoucupações estas despertadas por volta de seus 14 anos quando realmente se interessou por astrologia. Essa inquietação e busca pelo próximo o levaram ao curso de psicologia. Ele sanaria suas inquietações e estaria ainda dentro dos caminhos tomados e aceitos pela sociedade. Foram mais 2 anos e o sentimento não passava. Paralelamente a astrologia ganhava dimensões maiores e mais profundas.

A grande e definitiva virada foi em 2007 quando a própria psicologia foi deixada de lado para finalmente Elias encontrar seus caminhos e respostas. Desde então, a astrologia passou a ser a coisa mais importante de sua vida e sua profissão ajudando tanto a si quanto ao próximo. Escreve para o www.megastrologia.com desde 2007 para este que é um dos maiores sites sobre o assunto.

Como sua vida migrou em definitivo para a astrologia, ele faz questão de lembrar que é um sargitariano com Ascendente em Gêmeos, cujo mapa é formado basicamente por signos mutáveis, todos eles, em grande quantidade.

Elias mora em Florianópolis e faz consultas astrológicas via internet ou presencial e nesse momento se encontra em São Paulo onde ministrará um curso com mais dois palestrantes nesse sábado 20 de dezembro. Se deseja saber um pouco mais sobre esse encontro, clique aqui para saber sobre o evento que tem ainda poucas vagas.


Ou mesmo dar uma conferida sobre a página criada para o encontro no Facebook.

Para quem gosta de mudanças e novas direções no final de cada ano, pode ser uma boa pedida.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

ReConstrução

FOTO: IVAN SILVA


Todo dia ela faz tudo sempre igual...
Me sacodiu, me sorriu e me beijou com a boca de hortelã.

Era para ser igual como os outros dias. Ela dizer para eu me cuidar e essas coisas que diz toda mulher, que me esperaria para o jantar e me beijar com a boca de café.

Logo na saída de casa, consulto o celular/computador/vida de cada um de nós e então eu simplesmente soube que um amigo havia falecido. Havia ficado hospitalizado por cerca de 25 dias e uma pneumonia que desencadeou isso, que desencadeou aquilo que culminou com uma infecção generalizada, que deu off em seu celular/computador/vida.

Celular... computador... com puta dor... sem vida. 

A notícia me abalou e não interessava que não o via de fato uns 20 anos e que talvez uns dez mesmo em tempos de redes sociais. Será que o veria nos próximos dias? Meses? Anos? 20 anos? Talvez não e não era esse o problema. A desconexão eminente era o que me dilacerava no momento.

Meus sentimentos por ele iam wi fi e eu só podia esperar que nossos celulares/computadores/vida se conectassem naquele momento e o dia foi estranho. Foi surdo no meio da barulheira de sempre, ou talvez meu silêncio falasse mais alto. Pensei que tinha passado o dia em câmera lenta, mas ao final do dia, havia produzido e embalado 183 caixas. 9 acima de minha média. Ok. Não era meu recorde, mas era um número muito alto para quem não conseguiu pensar. Talvez esse tenha sido o segredo… não pensar.

Hora de voltar para casa e a cabeça estava completamente distante. Paralisei em frente da barbearia onde meu avô cortava o cabelo e trazia o meu pai que trazia-me e eu já trazia o meu filho… Será que meu bisavô cortava aqui? Meu neto cortará aqui? Isso não interessava por hora, o que me paralisou foi na verdade um flash de que ali, cerca de vinte anos atrás eu via pela última vez o meu amigo. Não lembro quem cortou o cabelo primeiro, mas o outro ficou por ali na escada sentado e conversando besteira. Não parecia que seria a última vez que nos veríamos. Daí depois disso eu viajei de férias, quando voltei, soube que ele havia se mudado de bairro e simplesmente perdi o contato dele. Confesso que por algum tempo, ele praticamente não existia mais em minha memória até ser reencontrado pelas redes sociais. Foi aquela empolgarão, aquela promessa de vamos nos ver, jogar bola, tomar uma cerveja e nada aconteceu. Eu casava, ele viajava, eu tinha que trabalhar, ele estudar e foi-se escorrendo por novas teclas e conexões em nossos celulares/computadores/vidas…

A porta da barbearia se fecha com o dia se aproximando de seu fim. Não reparava em seu Oswaldo há muito tempo, mas notei hoje mais velho. Realmente mais velho. Me cumprimentou com aquele olhar simpático, mas cansado e se foi. Fiquei olhando para a portão de correr. Visivelmente mais acabado também. Riscado, com papel adesivo, sujo e feio como se fosse cada um de nós se desgastando com o tempo, mas eles possuem lá suas vantagens. Uma reforma e ele pareceria novinho em folha. Já eu, meu amigo que se foi, seu Oswaldo ou mesmo meu filho, não tem volta.

Sentei e saquei meu celular/computador/vida.

– Ingrid?
– Oi?
– Lembra do Léo?
– Léo… Léo… que Léo?
– Aquele do colégio. Primo do Rafael.
– Ah, nossa… quanto tempo. Sei sim, o que tem?
– Vou dar uma passada na casa dele. Só para dizer um oi. Demoro meia hora tá?
– Mas hoje? Assim do nada? Qual o motivo?
– Nenhum em especial, apenas  que se eu esperar para amanhã, pode virar 20 anos e ele pode ter ido, ou mesmo eu ido dele por um único dia e nunca saberemos.
– É. A vida não está sob nosso controle. Passei a tarde pensando na Renata por causa disso…
– Amanhã é sábado. Chama ela para ir ao parque conosco.
– Será?
– E o que vamos fazer? Ver tv pensando que a gente poderia estar fazendo aquilo que a gente teve preguiça de fazer? Passam-se alguns segundos em silêncio e sei lá o que ela pensava. Pode ser que ela tenha pensado no sei lá que eu tenha pensado…
– É… vamos. É uma boa.


Seis da tarde como era de se esperar ela pega e me espera no portão diz que está muito louca pra me beijar e me beija com a boca da paixão. Disse para eu não me afastar, me jurou amor, me apertou até quase sufocar e me morde com a boca de pavor...

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Traçando outros caminhos



Antes de ser estilista eu sou fotógrafa, fiz faculdade no Senac, e as vezes fazia alguma roupa pra mim, a mão, só com uma agulha simples, demorava muitas horas. Eu morava em Diadema e recentemente vim morar no centro de São Paulo, e passando na rua vi um tecido lindo e já imaginei como modelaria. Modelo a partir da estampa. Pois a estampa influencia no caimento, na forma da roupa. 

Eu já estava pensando em desenvolver um projeto em Moda porque abriu no PROAC um edital que incentiva Moda, e este ano moda passou a ser considerado arte, podendo ser patrocinado também através da Lei Rouanet. Mandei um projeto pro PROAC que não foi aprovado, mas serviu para desenhar os croquis e desenvolver o conceito da marca. O conceito é misturar nas roupas a cultura Afro e a cultura Nipo (japonesa). Eu vejo muitos encontros estéticos entre as roupas tradicionais das duas culturas, alem de eu ser filha de uma afro, com um japonês. Eu busquei nas minhas origens inspiração pra criar, comecei pesquisando, mas logo passei pra pratica. O primeiro vestido que fiz nesse processo já foi um sucesso: O vestido Miriam Makeba. 

Foi tudo muito rápido. Costurei o vestido e fui pra balada com ele. As pessoas me paravam pra saber onde comprei. Então no dia seguinte comecei a costurar outros vestidos e postei no facebook. "Alguma mulher maior que eu poderia vir provar uns vestidos que estou fazendo." E para minha sorte, uma garota que conheci numa festa disse que viria e veio. A sorte é que ela é negra, alta e linda. Cici Andrade a moça da foto, que se tornou a partir dai uma parceira. Ela é cantora. Postei a foto no meu facebook e recebi um monte de encomendas. Mensagens de interesse. Corri e comprei uma maquina de costura com ajuda da minha família. Era meu aniversário. Normalmente eu passo fazendo festa, mas passei trabalhando nisso. Fui atrás de tecidos com as minhas economias. A máquina chegou dia 28 de outubro. Li o manual, fiz alguns testes, porque nunca fiz curso. E comecei a costurar todos os dias umas 12 horas por dia. Consegui dar conta dos trabalhos de fotografia também. Aliás a fotografia me ajuda muito, pois já faço e já fotografo e posto. Foi um mês muito intenso, pois sendo novembro o mês da consciência negra, fui convidada pra muitos eventos: saraus, festas em baladas. (2 Festas Obá, uma na Confraria Nossacasa e outra no Morfeus, 2 Saraus Identidade das Mulheres Negras e um desfile no Sarau das Rosas). 



Também fui no Mercado Roque Santeiro que é um bazar, e no Bazar da Casa 5. Vendi também nos eventos que fotografei nos equipamentos da prefeitura de São Paulo: Fabricas de Cultura e CEUs. Fui contratada para fotografar o projeto Espetáculo que ocorre no Fabrica de Cultura e para fotografar os shows do Fabio Nunez que ocorreu no CEU Navegantes e no CEU Alvarenga. 

A grande dificuldade que tenho encontrado é com o fornecimento de tecidos africanos. As encomendas atrasaram, os tecidos são difíceis de obter igual ao que já se comprou, e são caros. Mas são lindos, e o fato de serem relativamente raros no mercado traz destaque às roupas. Mas já tenho um fornecedor que é capaz de repetir tecidos, importa. Mas tecidos japoneses eu ainda não tenho. Queria tecidos com estampas tradicionais, não contemporâneos como mangas, pelo menos por enquanto. O que eu tenho feito é utilizar tecidos e formas que remetam ao trabalho de artistas mulheres japonesas e africanas, ou afro descendentes, e tenho homenageado essas mulheres dando o nome delas aos vestidos. É uma maneira de ampliar a divulgação do trabalho delas, pois posto fotos e vídeos e atiço a curiosidade das pessoas que acessam a minha página. Até agora foram homenageadas: Miriam Makeba (cantora), Clara Nunes (cantora), Glória Bonfim (cantora), Carolina de Jesus (poeta),Clementina de Jesus (cantora), Lia de Itamaracá (cantora de ciranda), Dandara (guerreira e esposa de Zumbi dos Palmares), Yemanja (entidade afro-brasileira), Yayoi Kusana (artista da exposição Obsessão Infinita), Yoku Ono (artista companheira do John Lennon), Kaori Momoi (atriz do filme Memórias de uma Gueixa). 

Eu me sinto com uma criatividade infinita porque cada pessoa, cada corpo, cada tecido, sugerem novas coisas. Tenho trabalhado muito e apaixonadamente. Sinto uma certa tensão na minha vida pessoal por conta de ficar muito tempo trabalhando e ter pouco tempo para a família e amigos, mas tenho tido ganhos sociais também, conhecido muita gente interessante, feito belas parcerias. Umas das minhas parceiras é a Lilia Reis do Coletivo Diadenêgas, ela é performer e contadora de histórias e pelo coletivo faz ações relacionadas as demandas das mulheres negras. Outra parceira é a Miriam Selma do Coletivo Levante Mulher, que me convidou para fazer o desfile no Sarau das Rosas produzido pelo coletivo. Também tenho tido muito incentivos individuais, as pessoas tem gostado muito do trabalho. Minha vida mudou muito, me sinto uma mulher muito empodeirada, e nem parece que faz tão pouco tempo que tomei esse rumo. 

Há muitos anos sou feminista, mas não via as vestimentas como vejo agora. Numa conversa com Aline Maria, minha amiga, ela me disse: "Que bacana suas roupas, é tão bom ser independente no vestir, assim como no se alimentar. Não estar refém dos outros. Eu adoro cozinhar, faço como eu quero." Eu não via como um poder, mas agora sei que é. Eu determino o que vou usar. Tenho feito roupas sob-medida e percebo que o mercado não contempla a variedade de corpos que existem, preferem forçar a barra para que as pessoas entrem nas roupas, tanto em relação a magreza quando em relação a cultura, em vez de fazer roupas que sirvam nas pessoas, roupas em que elas se identifiquem, que atendam as necessidades delas. Entendi que o mercado não é feito para atender necessidades é feito para acumular riquezas. Eu não sou contra a prosperidade no entanto. Sou próspera e quero continuar próspera e ajudar as pessoas a prosperar. Ser uma mulher próspera é ser livre, dando conta das próprias necessidades materiais, e ser realizada. 

Outra amiga comentou que sua prima fez faculdade de Moda, mas não sabe o que fazer. Acredito que isso aconteça porque uma boa ideia precisa de repertório, de diversas vivências que vão ampliar o olhar pro mundo e pra si mesma. Produzir algo criativo é como parir algo que se gestou um tempo. Apesar da velocidade com que me tornei estilista, os pré-requisitos que embasam meu trabalho eu desenvolvi ao longo da vida. Viver no centro de São Paulo é um fato que possibilitou esse caminho, devido a efervescência cultural daqui, da maior liberdade individual, mais reflexões políticas, e das facilidades estruturais como metrô e proximidade dos fornecedores. Eu dei a cara a tapa, e fui experimentando coisas, agora estou avaliando o que vivi esse mês, para definir como seguir. Tudo foi surpreendente, eu não esperava por tamanho reconhecimento, mas preciso ver o que eu consigo dar conta a partir de agora, ou melhor, como vou dar conta, e do que vou dar conta. 2015 promete!



Contato de Lígia Oki: ligiaoki@gmail.com ou em sua página no Facebook.